14 de fevereiro de 2007

O meu socorro vem do Senhor

Mais um dia de mau tempo. Hoje o mar está revolto, espumado, não passam lanchas. Os voos já foram todos cancelados. Quando vejo o mar assim, recordo-me sempre de uma viagem de barco Terceira/Horta, em que pudemos sentir claramente a mão de Deus a proteger-nos.
Eu estava grávida de sete meses. Tínhamos ido com um grupo de irmãos da igreja à assembleia da ABA, na Praia da Vitória. Assim que o barco partiu, começaram logo a distribuir-nos saquinhos para o enjôo. Poucos segundos depois, o barco levantou literalmente vôo e bateu de chapa no mar, com uma força brutal. Senti um medo terrível… Lembro-me de ter abraçado a barriga e, bem devagar, deitar-me de lado, sobre os bancos, ao comprido. Fechei os olhos e pedi a Deus que me desse um sono profundo. Durante duas horas e meia, aquele barco foi sacudido no oceano com uma violência inexplicável. Nem vale a pena descrever o ambiente que se viveu a bordo. Um dos irmãos que nos acompanhava foi marinheiro toda a vida e também passou mal, tendo dito que foi das piores viagens da sua vida. Outra das irmãs que ía connosco teve de ser hospitalizada. Quando o barco parou em São Jorge, o meu marido acordou-me. Eu tinha dormido um sono tão profundo que até tinha baba seca na boca! Grávida de sete meses, fui a única pessoa que não passou mal naquela viagem. Só mesmo por Deus! Esta foi uma das experiências mais fortes que tive com Deus, aqui nos Açores. Depois soube, que uma irmã da nossa igreja, ao ver que ninguém lhe atendia os telemóveis, tinha estado a orar por nós durante a viagem. Que teria sido de mim e do meu filho se não tivesse adormecido? Sempre que me lembro deste episódio dou graças a Deus pelo seu livramento. “Deus é o nosso refúgio”!

13 de fevereiro de 2007

Choque de gerações - parte 2

No Natal, uma das prendas que o nosso filho ganhou do meu serviço foi uma caixa de actividades, onde está incluído um telefone. Acontece que aquele telefone não tem botões, mas é de "discar" (como eram a maioria dos telefones ainda aqui há não muitos anos atrás). O curioso desta história é que fomos dar com o nosso filho a carregar nos buraquinhos dos números (como se fossem botões) para marcar as chamadas. Tivemos de lhe explicar que para marcar um número tinha de rodar!! Impressionante...

Hora de ponta


Acho muita piada...

... às filarmónicas.
Aqui, ainda têm muita força (há imensas). As pessoas gostam muito de as ouvir tocar e a rádio passa a sua música. Conheço algumas pessoas que pertencem a filarmónicas e aprecio a forma como se dedicam às mesmas. Também acho piada às rivalidades entre as filarmónicas de cada freguesia. Para mim, um aspecto muito positivo das filarmónicas é o facto de proporcionarem que muita gente aprenda a ler e a tocar música.

12 de fevereiro de 2007

Na sala de voto

Ontem, ele foi votar connosco. Entrou na sala de voto e disse bem alto: "Olá!". Os cinco senhores que estavam na sala deram uma gargalhada em côro e retribuiram o olá. Como viu que teve sucesso, começou a dar beijinhos na mão e a enviá-los pelo ar. As gargalhadas aumentaram. Eu peguei nele e saí sorrateiramente da sala, pois, se bem o conheço, a seguir ía fazer o "põe, põe, galinha" e logo após o "barriguinha cheia"!
(depois fiquei a pensar se, depois daquela cena enternecedora, alguém teria coragem de votar "sim"...)

Obrigado, Açores!

Hoje sinto-me muito triste com o meu País...
Hoje sinto-me orgulhosa do povo açoriano e por poder fazer parte dele.

9 de fevereiro de 2007

Vizinhança (continuação)

-"Dá ovos de aviário ao seu menino?"
-"... sim... eu compro os ovos no híper..."
-"Pegue lá! Ovinhos caseiros!"
(Desde então, é raro ter ovos de aviário em casa)

Timidez

Quando era miúda, havia uma passagem bíblica que me preocupava bastante. É aquela, em Apocalipse, que diz que os tímidos não têm parte com Deus. Eu pensava que isso significava que pessoas como eu não tinham hipótese de ir para o Céu. Mais tarde, aprendi que não é a esse tipo de timidez que o texto se refere (uf!).
É muito difícil um tímido deixar de ser tímido, ou fingir que não é tímido. Nota-se sempre. E a vida não me tem facilitado nada as coisas. Olhando o meu percurso de vida, vejo que tenho sido sempre colocada em situações “impróprias para tímidos”. A situação mais ‘dramática’ de que me recordo durante a minha infância, era quando a minha mãe me pedia ajuda na sapataria. “Filha, vai ali atender aquela senhora, pergunta-lhe se precisa de ajuda” (isto era tão difícil para mim!). Depois escolhi seguir o curso típico dos desinibidos. Fiz dezenas de provas orais (com audiência). No estágio, fiz das tripas coração e, pela graça de Deus, ganhei muitos casos. No meu emprego actual, tanto tenho de saber lidar com o mais simples utente como com os meus altos dirigentes. Na igreja, fui perdendo a timidez ao estar sempre envolvida nos diversos ministérios e, no ano passado, até preguei pela primeira vez (no dia do Pastor). Olho para trás e acho que começo a compreender porque é que sou tímida. É que assim, nunca tenho dúvidas de que é Deus que me abençoa em tudo o que eu faço. Nunca caio na presunção de achar que alguma coisa aconteceu devido à minha capacidade de argumentação ou persuasão. A glória a quem ela é devida: ao Senhor!

8 de fevereiro de 2007

O lado mau da ilha

Nos filmes, as ilhas têm sempre um “lado mau” para onde não se deve ir. Aqui, há dois lugares de que eu não gosto muito. Um deles fica na minha freguesia. É uma rua com várias casas que foram completamente destruídas pelo sismo de 98. Não foram reconstruídas por estarem em cima de uma falha (a minha freguesia foi a mais atacada pelo sismo, o que me transmite uma enorme sensação de conforto, como devem imaginar!). Outro lugar de que eu não gosto muito (e que até é um dos pontos turísticos mais apreciados da ilha) é o vulcão dos capelinhos. Há tempos vi no programa do Malato uma pergunta mais ou menos assim: ”Qual o único vulcão adormecido em Portugal?” e a resposta era “Vulcão dos Capelinhos”! Como devem calcular, fiquei muito feliz por saber que o dito cujo está “adormecido” em vez de extinto. Certa vez, ía de carro sozinha e enganei-me no caminho, tendo ido parar ao vulcão. Isto passou-se ao final da tarde, já a ficar escuro... comecei a ver aquela paisagem de cinzas, estilo lunar, sem viv'alma e senti cá um respeitinho! Dei meia volta e prego a fundo, que se faz tarde!

6 de fevereiro de 2007

A fase das fases

Ainda me faz impressão

A areia da praia ser escura.
(aqui, quando os miúdos fazem "croquetes de areia" - aquela brincadeira de se molharem e depois enrolarem-se na areia - ficam todos pretos).

O despertar da pronúncia

Quando o vou buscar à ama, vem a chamar-me "mamãin", em vez de "mamã". Com calma, procuro ensiná-lo que se diz "mamã", apenas. Mas começo a desconfiar que esta é uma luta que, mais tarde ou mais cedo, vou acabar por perder. Os coleguinhas com quem ele passa o dia todo não são continentais (tenho de me convencer disso).

Mateus

Estava a conversar trivialidades com uma açoriana, quando a certa altura comentei que eu nasci num dia 12 e o meu filho nasceu a 21 (os mesmos números ao contrário). Mal acabei de dizer isto, ela disse-me logo muito depressa: “O seu filho devia chamar-se Mateus!” (Mateus? Mas a que propósito? Até é um nome bíblico, mas não está assim lá muito na moda, pensei eu)
E continuou: “O seu filho nasceu no dia de São Mateus!” (pronto, está explicado)
O curioso desta história, é que aquela açoriana é uma rapariga nova, na casa dos trinta. Independentemente das pessoas daqui serem ou não muito praticantes (e, pelo que me tenho apercebido, o Faial é a ilha menos fervorosa) a tradição católica é ainda uma marca muito forte nos açorianos.

5 de fevereiro de 2007

Ultrapassagem perigosa

Nesta terra, é muito comum termos de fazer ultrapassagens a vacas (ainda hoje de manhã fiz uma). Isto requer alguma técnica! No início, ultrapassava vacas como quem ultrapassa automóveis: pisca para a esquerda, pé no acelarador e cá vai disto. Mas não é assim que se ultrapassam as ditas cujas. Aprendi esta lição numa bela manhã em que ía atrasada para o emprego. Ía lançada na estrada, quando, de repente, vi o meu vizinho com as suas vaquinhas. Sem abrandar, ultrapassei-as. As vacas ficaram agitadas e o meu vizinho gritou "Ó vizinha, CALMA! CALMA!!" Eu fiquei tão embaraçada que fui até ao fim da rua a pedir-lhe desculpa com o braço levantado!
Agora já sei como se faz: pisca para a esquerda e, bem devagarinho, ultrapassam-se as vaquinhas. (Estamos sempre a aprender)

4 de fevereiro de 2007

Massa sovada

É das melhores coisas que descobrimos nos Açores e já não sabemos viver sem ela. Tem um papel semelhante ao do pão. Tanto pode ser comida com manteiga, queijo, fiambre, doce, etc., como pode servir de acompanhamento numa refeição. Há dias, o meu marido trouxe uma massa sovada (ainda quentinha) da padaria e comemos quase metade, ao lanche. Um abuso!
Também nisto o nosso filho revela ser um açoriano. Gosta muito de massa ("pã") e de "queixe" (queijo).

Dia das de amigas

Por volta das 20h00, encontrámo-nos todas na casa de uma amiga comum. Cada uma levou um doce ou um salgado. Eu levei um frango, que até foi elogiado, mas como sou crente e não devo mentir, tive de lhes dizer que foi comprado (não houve tempo para mais). Éramos um grupo de 12 mulheres. Conhecia seis delas (da igreja). As restantes eram amigas das minhas amigas. Uma delas explicou-me que: "Já há muitos anos que janto com estas amigas, neste dia. Agora que me converti e que tenho amigas novas, não podia deixar de as trazer." Disse-lhe que fez muito bem em trazê-las.
Antes de nos sentarmos à mesa, acompanharam-me todas numa oração. Conversámos, rimos, comemos, todas em volta da mesma mesa. Foi um convívio muito agradável. A certa altura, falou-se que estamos a fazer uma semana de oração na igreja. "É que, lá na igreja, nós oramos uns pelos outros"- explicou uma delas. Dali a pouco, uma das senhoras pediu para ler o nosso boletim (leu-o todo).
No final, levantámo-nos, demos as mãos e orámos todas juntas. Quando abrimos os olhos, três daquelas senhoras estavam a chorar. "Muito obrigada", disseram. "Um dia destes vou lá à igreja. Já estive para lá ir uma vez, mas depois não deu." - disse-me uma delas.
Vim para casa de boca aberta (literalmente) com o que Deus fez naquele jantar. Sem dúvida que a obra é Dele! Que o que se passou naquele jantar possa ser o começo de uma obra tremenda na vida daquelas mulheres.

2 de fevereiro de 2007

Da janela do meu quarto




...vejo o arranha-céus mais alto de Portugal.
(Pico: 2351 m de altura)

Uma data memorável

Faz hoje dois anos! Dois anos que chegámos de malas e bagagens. Dois anos que chegámos os três, a pensar que ainda éramos só dois (o nosso açoriano só é insular de nascimento). O recheio da nossa casa e o nosso carro já tinham partido de barco, de Lisboa, uma semana antes de nós, mas só viriam a chegar um dia ou dois depois de cá estarmos. Deixámos os pais, na Portela, em lágrimas. Deixámos irmãos, deixámos amigos, deixei o meu emprego, deixámos a nossa casa nova, deixei as minhas plantas… tudo ficou do outro lado do oceano, em obediência a uma Chamada.
Hoje, olho para trás, e vejo como Deus tem sido bom para nós. É certo que não temos aqui a família connosco, mas temos uma família espiritual tão amorosa e que nos acarinha tanto! Temos um filho que nos enche os dias de felicidade! Temos uma casa tão bonita… Não tenho as minhas plantas, mas quando abro as janelas, sou inundada por um tapete verde fascinante, que desce pelas montanhas que rodeiam a nossa casa. Somos felizes aqui e temos sentido muita alegria no ministério que Deus nos deu.
(e, confesso, por vezes já usamos expressões e falamos com entoações faialenses, apesar de no meu marido ser mais notório do que em mim ;)

Sabiam que...

...os Açores são a única zona da União Europeia onde se cultiva chá?

Ainda me faz impressão...

As portas de muitas casas serem de vidro.
(inclusivé, a nossa)