27 de fevereiro de 2007

O preço da insularidade

Eram quase duas da manhã quando saímos das urgências. "A criança tem uma gastroenterite", foi a conclusão do médico. "Quando chegarem a casa dêem-lhe logo o medicamento x para o acalmar". Dirigimo-nos à farmácia de serviço e, tal como suspeitávamos, estava fechada, com as luzes apagadas e as grades para baixo. Felizmente, também estava lá à porta uma senhora, com uma criança, que já tinha telefonado para casa do dono da farmácia. Passado um bocado, chegou o senhor. Abriu-nos a porta, ligou as luzes, pegou na receita e disse-nos "este medicamento está esgotado!"
Foi procurar o número do distribuidor de medicamentos, mas não conseguiu ligação para o dito senhor porque o telefone da farmácia está ligado à rede multibanco e esta estava fora de serviço (foi mais ou menos isto que entendemos que se estava a passar). O meu marido disponibilizou-se, então, a ligar do seu telemóvel para o distribuidor de medicamentos. Não atendeu, tinha o telemóvel no silêncio porque tem dormido muito mal (foi a explicação que deu no dia seguinte). Voltámos para casa sem o medicamento.
(Às vezes não é fácil viver aqui...)

25 de fevereiro de 2007

Imaginação

A função original deste carro é transportar o carrinho verde, mas...
... o nosso filho entendeu dar-lhe outra função! (lol)

24 de fevereiro de 2007

Como retribuir?

Estive a ver fotografias antigas e apercebi-me que, desde que o nosso filho nasceu, eu fico sempre com um sorriso ridículo em todas. É um sorriso exagerado, meloso, babadíssimo. Um sorriso de alguém que ama profundamente. Ao ver estas fotos, lembrei-me de uma colega de estágio, que me disse uma vez que o amor de uma mãe por um filho não tem compensação possível. Nem é preciso. Uma mãe ama, simplesmente. Se ele me der um sorriso ou um beijinho, o dia está ganho. Se não der, ganho está na mesma. É um amor desinteressado, constante, crescente e infinito. E eu, que tenho tantos defeitos, e consigo amar assim tão profundamente o meu filho, fico a pensar como será o amor do Pai, o Deus de Amor, por nós? Por vezes, na vida, podemos não ter tido a sorte de ter os melhores pais do mundo, mas podemos ter o melhor Pai do universo, se nos dermos ao Senhor.

23 de fevereiro de 2007

Água no bico


Ele: "Já te disse hoje que és muito linda?"
Eu (com um sorriso babado): "Ainda não..."
Ele: "Já te disse que tive um convite para ir pescar logo à noite?"
(está explicado)

Susto

Hoje, como de costume, fomos à mercearia/talho do nosso bairro fazer umas compras, quando, de repente, nos apercebemos da novidade: uma enorme cabeça de vaca pregada na parede! Eu e o meu marido ficámos de boca aberta a olhar para aquilo. Parecia-me tão perfeita que não resisti perguntar se era verdadeira. Resposta: “Claro que sim. E aquela atrás de si também!” Viro-me para trás e dou de caras com uma cabeça de boi preta, com uns chifres enormes, até dei um pulo com o susto! (livra!) Já há muito tempo que não via destas cabeças de gado nos talhos. Tenho de levar lá o meu filho para ver a reacção dele!

Misericórdia

A caminho da nossa casa, existe um altar, com uma santa, fechado a vidro, sempre muito bem decorado com flores frescas e velas. Por vezes, vêem-se lá pessoas paradas, a rezar. Corta-me o coração. Dizem que o senhor que zela por aquele altar é muito cuidadoso e que faz tudo para o manter impecável. O temor dos açorianos por estas coisas é grande. Que o Senhor nos ajude a mostrar a Verdade a estas pessoas!

22 de fevereiro de 2007

Sabores

Uma das coisas que mais estranhámos quando chegámos ao Faial foi o estilo dos bolos. Desde logo, cá não existem pastelarias como aquelas a que estamos habituados no Continente: um perder de vista de tentações de todas as formas e feitios. Depois, os bolos daqui são diferentes. Por exemplo, não se vêem “bolos de arroz” (que eu tanto amo). Às vezes, encontram-se pastéis de nata e palmiers, mas, de resto, são bolos com outras formas, do estilo caseiro, diria até “abrutalhados”. Uma vez, o meu marido e eu pedimos duas roscas para o lanche (pareciam donnuts), mas quando provámos sabiam a mel (tão estranho)! Outra nota importante é que, tirando as típicas queijadinhas, os bolos são enormes (haja estômago)! E os bolos de aniversário, então, são colossais! Nas festas de anos, o bolo é sempre majestoso (estou a falar de, no mínimo, cinco dedos de altura), servido em cima de uma tábua de madeira forrada a alumínio. E os sabores são outros. Aqui, por exemplo, descobri o maravilhoso bolo de anos “formigueiro”, feito de massa de bolo (humedecida) com pepitas de chocolate e recheio de caramelo. De bradar aos céus!

21 de fevereiro de 2007

Segunda mãe

Ela guardava religiosamente um bilhete que uma vez lhe escrevi no dia da mãe (era eu uma miúda) que dizia: "Para mim, és como uma segunda mãe." De vez em quando, ela ía buscar aquele bilhete e lia-mo, com os olhos marejados. Era tão querida! Das coisas mais engraçadas que me recordo dela, era quando começava a orar, antes de comer, ou antes de dormir, sem avisar ninguém, atropelando, assim, quem estivesse a falar nesse momento. "Ó Senhor...", era assim que começava sempre. Dizem que dela herdei a característica de ser poupada. Lembro-me de pensar que um dia que ela partisse as suas filhós íam partir com ela. E assim foi. Ninguém na família as sabe fazer com o mesmo sabor. Não chegou a saber que tem um bisneto açoriano. Tenho a certeza de que ela ía gostar muito de saber que o seu neto mais novo se baptizou há dias na sua igreja. Já lá vão três anos que ela está com o Senhor, o seu Senhor! E nós, seus descendentes, continuamos a recordá-la com muito amor e gratidão pela pessoa que foi.

19 de fevereiro de 2007

O meu marido




Hoje, há trinta e dois anos atrás, nasceu a pessoa mais maravilhosa que existe neste mundo.

18 de fevereiro de 2007

Mais uma...




... a última, da minha colecção de colheres de pau (do enxoval).
(Autor: filho, 17 meses)

17 de fevereiro de 2007

16 de fevereiro de 2007

Ser mãe, no Faial

Estava a levantar dinheiro numa caixa Multibanco quando, de repente, olho para o lado e dou de caras com a parteira do meu filho. Nunca mais a tinha voltado a ver. Trocámos um sorriso tímido, próprio de quem partilhou um momento tão forte e marcante como aquele, seguido de um “boa tarde”. Há pessoas que nos marcam para o resto da vida. Não sei o nome dela, nem sei nada sobre aquela senhora. Apenas sei que é parteira e que tenho uma dívida de gratidão para com ela, para o resto da minha vida.
Aqui, são as parteiras que fazem tudo. Muitas vezes, os médicos nem estão presentes no momento do parto. Para além das grávidas do Faial, as senhoras das ilhas do Corvo, Flores e Pico também vêm ter os seus bebés ao Faial. Não há hospitais naquelas três ilhas. Quando estive na maternidade, era a única do Faial (e o meu filho era o único rapaz, no meio de três picarotas). Aos oito meses de gravidez, aquelas mulheres têm de vir para o Faial. Deixam o marido e os filhos na sua ilha de origem, arrendam um quarto ou ficam na casa de alguém conhecido, esperando que se complete o tempo de gestação. Não é nada fácil. Há muitos bebés que acabam mesmo por nascer nas suas ilhas de origem, nos centros de saúde. Outros, nascem nos helicópteros e nas lanchas. Aqui, quando os bebés nascem prematuros, têm de ser evacuados para a Terceira ou para São Miguel. Não temos cá ventilador.
Também nisto pude ver claramente Deus a abençoar-me. Três horas depois de ter dado entrada no hospital, tinha o meu filho nos braços, sem quaisquer complicações. E apesar de nao termos ventilador, temos bacalhau com natas, que foi o prato que me serviram menos de uma hora depois do parto!

15 de fevereiro de 2007

O que as notícias não contaram

Ontem, o Faial esteve em alta. O famoso "cartão do cidadão" foi lançado numa cerimónia que decorreu na cidade da Horta (isto não é nenhuma terriola, atenção!) e que reuniu altas individualidades do Governo da República e do Governo Regional, entre as quais quero destacar Sócrates e César - o Primeiro Ministro e o Presidente do Governo Regional.
No final da cerimónia, uma senhora, já idosa, muito emocionada com tudo o que se passou naquela sessão, aproximou-se de Sócrates e César e, com o maior dos à vontades, disse-lhes: "Vocês os dois são umas jóinhas!" e repetiu várias vezes "jóinhas", tocando-lhes no braço!

Sandes de queijo

Querem um conselho de amiga? Quando vierem aos Açores pensem duas vezes antes de pedir uma sandes de queijo. Porquê? Aqui, uma sandes de queijo não se resume a uma fatia de queijo de barra no meio de um papo-seco. São, no mínimo, duas ou três fatias e o queijo costuma ser daqueles que nos faz franzir os olhos. Na ilha de São Jorge, serviram-me mesmo uma sandes de queijo de São Jorge (ao pequeno almoço). Até senti calores na testa!
Bom, bom, é o queijo do Faial. Queijo “Ilha Azul” (acho que não vão conseguir encontrá-lo no Continente). É um nadinha amanteigado e muito suave. O meu marido, que não gosta de queijo, devora bolas de “Ilha Azul”. Este queijo ganhou há pouco tempo um prémio de qualidade. A manteiga da mesma marca também é a melhor que já comi na vida (e uma caixa só custa € 1,17).

14 de fevereiro de 2007

O meu socorro vem do Senhor

Mais um dia de mau tempo. Hoje o mar está revolto, espumado, não passam lanchas. Os voos já foram todos cancelados. Quando vejo o mar assim, recordo-me sempre de uma viagem de barco Terceira/Horta, em que pudemos sentir claramente a mão de Deus a proteger-nos.
Eu estava grávida de sete meses. Tínhamos ido com um grupo de irmãos da igreja à assembleia da ABA, na Praia da Vitória. Assim que o barco partiu, começaram logo a distribuir-nos saquinhos para o enjôo. Poucos segundos depois, o barco levantou literalmente vôo e bateu de chapa no mar, com uma força brutal. Senti um medo terrível… Lembro-me de ter abraçado a barriga e, bem devagar, deitar-me de lado, sobre os bancos, ao comprido. Fechei os olhos e pedi a Deus que me desse um sono profundo. Durante duas horas e meia, aquele barco foi sacudido no oceano com uma violência inexplicável. Nem vale a pena descrever o ambiente que se viveu a bordo. Um dos irmãos que nos acompanhava foi marinheiro toda a vida e também passou mal, tendo dito que foi das piores viagens da sua vida. Outra das irmãs que ía connosco teve de ser hospitalizada. Quando o barco parou em São Jorge, o meu marido acordou-me. Eu tinha dormido um sono tão profundo que até tinha baba seca na boca! Grávida de sete meses, fui a única pessoa que não passou mal naquela viagem. Só mesmo por Deus! Esta foi uma das experiências mais fortes que tive com Deus, aqui nos Açores. Depois soube, que uma irmã da nossa igreja, ao ver que ninguém lhe atendia os telemóveis, tinha estado a orar por nós durante a viagem. Que teria sido de mim e do meu filho se não tivesse adormecido? Sempre que me lembro deste episódio dou graças a Deus pelo seu livramento. “Deus é o nosso refúgio”!

13 de fevereiro de 2007

Choque de gerações - parte 2

No Natal, uma das prendas que o nosso filho ganhou do meu serviço foi uma caixa de actividades, onde está incluído um telefone. Acontece que aquele telefone não tem botões, mas é de "discar" (como eram a maioria dos telefones ainda aqui há não muitos anos atrás). O curioso desta história é que fomos dar com o nosso filho a carregar nos buraquinhos dos números (como se fossem botões) para marcar as chamadas. Tivemos de lhe explicar que para marcar um número tinha de rodar!! Impressionante...

Hora de ponta


Acho muita piada...

... às filarmónicas.
Aqui, ainda têm muita força (há imensas). As pessoas gostam muito de as ouvir tocar e a rádio passa a sua música. Conheço algumas pessoas que pertencem a filarmónicas e aprecio a forma como se dedicam às mesmas. Também acho piada às rivalidades entre as filarmónicas de cada freguesia. Para mim, um aspecto muito positivo das filarmónicas é o facto de proporcionarem que muita gente aprenda a ler e a tocar música.

12 de fevereiro de 2007

Na sala de voto

Ontem, ele foi votar connosco. Entrou na sala de voto e disse bem alto: "Olá!". Os cinco senhores que estavam na sala deram uma gargalhada em côro e retribuiram o olá. Como viu que teve sucesso, começou a dar beijinhos na mão e a enviá-los pelo ar. As gargalhadas aumentaram. Eu peguei nele e saí sorrateiramente da sala, pois, se bem o conheço, a seguir ía fazer o "põe, põe, galinha" e logo após o "barriguinha cheia"!
(depois fiquei a pensar se, depois daquela cena enternecedora, alguém teria coragem de votar "sim"...)

Obrigado, Açores!

Hoje sinto-me muito triste com o meu País...
Hoje sinto-me orgulhosa do povo açoriano e por poder fazer parte dele.