-“Não se preocupe! É normal… foi um susto grande…” – consolavam-me eles. “Agora fique aqui deitada nesta maca que nós vamos ficar com a custódia dos seus filhos por um bocadinho”.
Enquanto estava ali deitada, branca como a cal, recordei o episódio que me tinha trazido àquele hospital. Enquanto terminava o almoço, os meus filhos brincavam no quarto. O meu marido estava na Ilha Terceira. A certa altura (soube mais tarde pelo meu filho), a minha filha lembrou-se de trepar a cómoda da roupa para tentar alcançar o aquário do peixe, que estava por cima. Nisto, ouvi um estrondo monumental, seguido de muitos gritos. Corri para o quarto e vejo a cómoda da roupa tombada sobre os dois. O aquário em mil pedaços. Só via as pernas do meu filho a sair debaixo da cómoda e a minha filha nem se via. Puxo o meu filho para fora e apercebo-me logo que tinha vários cortes nas pernas. Depois, começo a revirar as gavetas (cheias de roupa) e encontro a minha filha debaixo de uma delas. Tinha um vidro enorme no pescoço e sangue. Retiro-lhe o vidro e examino rapidamente o seu pescoço, mas não encontro nenhum corte. Pouco depois, descobri que o sangue vinha da cabeça, onde tinha um golpe. Corro para o telefone para pedir socorro ao meu irmão (graças a Deus por ele estar aqui nos Açores). As mãos tremiam-me tanto que mal conseguia marcar o seu número. Em poucos minutos, chegou a minha casa. “- Ai, o meu amigo peixe!... O meu rico amigo!” – gritava o meu filho em prantos no meio da confusão. Ao ouvi-lo dizer isto, o meu coração doía, pois comprámos o peixe há pouco tempo, em substituição de outro que morreu, para grande desgosto do meu filho. “Paciência”, pensei. Rumámos para o hospital e fomos atendidos de imediato. Os cortes não eram fundos, não levaram pontos, tudo se tratou com aquela “cola” milagrosa que agora aplicam nestas situações. E foi quando vi os meus filhos entregues nas mãos dos profissionais de saúde, livres de perigo, a serem tratados, que a minha cabeça começou a rodar, a rodar e as minhas forças se esgotaram.
Ao rever este episódio, deitada naquela maca, agradeci a Deus pelo seu livramento. Podia ter sido muito pior. Mas Deus cuidou de todos. Até do peixe! É que, ainda não contei, mas, quando o meu irmão chegou a minha casa, foi ao quarto e, no meio dos destroços, lá encontrou o peixinho, sobre um vidro, com um pequeno corte na barbatana, mas ainda a saltitar! Colocou-o numa taça com água e lá está ele, vivo e de boa saúde! Até deste pormenor (tão importante para o meu filho) o Senhor cuidou.
Por fim, quando saímos do hospital, cada um com um balão e uma seringa de oferta (todos contentes), o médico despediu-se de nós da seguinte forma: “As melhoras! E se o peixe precisar, traga-o também!” (lol)

