20 de junho de 2013

Corvo

Este texto (que já saiu no Jornal de Letras em  2011), descobri-o agora pela mão da minha amiga D.Lídia Oliveira. É um pequeno relato da passagem da escritora Alice Vieira pela Ilha do Corvo. A mais ocidental e a mais pequena ilha do arquipélago, onde vivem apenas cerca de 400 pessoas. Não tive oportunidade de conhecer o Corvo, mas conheci corvinos e muitas destas histórias. Não deixa de ser uma perspectiva pessoal, mas é muito interessante.
Aqui fica um pouco deste texto:
"Cheguei ao fim do mundo. (...) No mesmo avião veio D. Manual Martins, antigo bispo de Setúbal. Diz-me que o padre da terra, que ele nem conhece, precisou de ir tratar-se aos EUA e lhe telefonou a pedir que que o substituísse uma semana. E ele veio. Sou recebida na pista por um senhor que acarta a minha mala, e logo me enfia para dentro de um carro que já viu melhores dias. Diz-me que é na casa dele que vou ficar, porque Outubro é o mês em que a ilha se enche de ornitólogos em cata de aves em trânsito, e é difícil arranjar camas vagas. De repente dá uma gargalhada, apontando para as minhas mãos desesperadamente em busca do cinto de segurança; - Não há! Aqui no Corvo não se usa. Nem capacetes nas motorizadas, nem nada disso... (...) Quero organizar o trabalho para os dias seguintes, e peço um táxi para me levar de manhã a dar uma volta pela ilha. Um sorriso de olha-para-a-esperta-que-vem-do-continente, e logo a resposta: no Corvo não há táxis, nem transportes públicos, e a frota automóvel existente resume-se a meia dúzia de carros particulares, ou nem tanto. Depois há motorizadas, e algumas carrinhas de caixa aberta, onde as pessoas levam o necessário para irem para as terras. E uma tabacaria para comprar jornais? Jornais não há, tabacarias também não. E juro que lhe senti um leve orgulho na voz quando, a seguir a todas as minhas perguntas ("E lojas? E mercado?, etc) ele ia respondendo "não há, não há..." (...) Indica-me onde vou tomar as refeições todos os dias e, já vai a sair, quando lhe peço uma chave de casa, para eu não estar sempre a incomodar quando entro ou saio. Novo sorriso: - No Corvo não há chaves. As portas ficam todas no trinco. (...) Ao almoço (parece que toda a gente come no café da Teresinha), D. Manuel Martins recorda-me que hoje é dia de procissão. Apesar de já ter estado no Corvo, D. Manuel Martins admira-se sempre da pouca frequência nas missas, e da pouca alegria: "Ninguém canta!". (...) Depois da missa das oito da noite, a procissão percorre rapidamente as duas ruas da vila.(...) o entusiasmo não é muito, até porque a maioria é muito velha, as mulheres arrastam-se com dificuldade. (...) À cabeça da procissão, D. Manuel pára muitas vezes para olhar para trás. Numa procissão normal, o padre vem sempre no fim. Mas aqui também deve ser diferente. E por isso ele olha para trás, e faz pausas, para que ninguém fique pelo caminho."Este padre é pequenino, mas anda tão depressa...", murmura uma velhota ao meu lado, dobrada sobre a bengala.
Janto no sítio do costume, a ver na televisão o Benfica ganhar dois zero ao Portimonense. Os homens estão todos lá fora, a fumar. Benfica e Portimonense devem dizer-lhes tão pouco. (...) Afinal de que precisamos para viver? Isto perguntava-me eu, nas primeiras horas de aqui chegar - convencida de que iria encontrar, no meio deste isolamento, uma sociedade ainda não contaminada pelos males do consumo. Rapidamente me fazem descer à terra: estou na sociedade mais desenfreadamente consumista que conheço. Tudo se compra - por encomendas de catálogo, pela lancha que vai às Flores e ao Faial, pela net. A dependência da eletricidade é total. A televisão domina tudo. Todas as casas têm arca frigorifica, televisor último grito, computador, micro-ondas, etc. Se algum tem - todos os outros compram a seguir. E há sempre alguém que vende qualquer coisa: fico a saber, por exemplo, que a Teresinha vende Bimby's que são, ao que parece um sucesso. (...) Aqui ninguém passa fome e, se não há ricos, também não há pobres. Dizem-me que cada corvino tem um lote de terreno e uma vaca.(...) Trabalha-se, pesca-se, à noite vê-se a novela, e os mais novos bebem cerveja nos bombeiros. São um povo estranho. Fechado, pouco simpático, sem tradições de convívio. (...) Estou de partida. D. Manuel regressa também. De todas as conversas que mantivemos, há uma que não me sai da memória: "Eu acho que esta gente não vai muito à igreja porque não sente necessidade. Eles passam a vida neste isolamento todo, nesta lonjura, neste silêncio, nesta imensidão, estão todos os dias em contacto com Deus. Para quê irem à igreja à procura de um Deus formatado?" Quero acreditar que sim. Mas também não me sai da cabeça aquela frase de Raul Brandão, no seu texto sobre o Corvo: "Se não fossem cristãos, matavam-se uns aos outros."

Agradecimento

Ainda sobre o internamento do meu filho no Hospital Amadora-Sintra, tenho a registar que foi muitíssimo bem atendido, salientando o carinho com que foi tratado por parte dos médicos, enfermeiros e auxiliares. Um ponto alto foi o dia em que recebemos a visita de dois palhaços (um deles apresentou-se como sendo o "Dr. Chocapic"), da 'Operação Nariz Vermelho'. Ri a bom rir. Bem-hajam!
(foto tirada do site www.narizvemelho.pt)

18 de junho de 2013

Agradecer tudo

"Em tudo dai graças", no bom e no mau, foi das primeiras coisas que aprendi na igreja. Mas porquê agradecer a Deus pelas coisas más que nos acontecem? "Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco" (I Tess. 5:18). Recentemente, decidi  inscrever-me num determinado curso.  As circunstâncias que me levaram a inscrever naquele curso não foram boas, pois prendem-se com a busca de alternativas profissionais, num momento em que continuo sem trabalhar. Mas, curiosamente, nesse curso vim a reencontrar uma antiga colega de faculdade, com quem não tinha contato há mais de dez anos.  Durante cerca de três semanas, passei bastante tempo com essa colega, com quem almoçava todos os dias. Um dos assuntos que, naturalmente, nos acompanhou nesses almoços foi a fé cristã. "Desculpa-me fazer tantas perguntas sobre a tua igreja..." - dizia-me ela (e eu toda contente). Disse-me que acha que não crê em Deus, mas que também não tem a certeza... Expliquei-lhe que todos sentimos "falta" de Deus nas nossas vidas, pois fomos criados para ter um relacionamento com Deus e que quando Ele não está na nossa vida fica um vazio enorme... Terminado o curso, ela recebeu o resultado de um exame médico que a remeteu para o IPO. Havia um propósito naquele curso. A minha colega tem agora pessoas que oram por ela. Também por estes dias, passei quatro noites no hospital a acompanhar o meu filho. Uma das mães com quem partilhei quarto conversou bastante comigo e ficou até uma certa amizade entre nós. Aquela mulher passa todos os dias na rua da nossa igreja, mas não sabia qual a nossa fé. Ficou admirada de eu ser portuguesa, pensava que os evangélicos eram todos brasileiros. Convidei-a a visitar-nos um dia. Ela não me disse que sim, mas também não disse que não. "Em tudo dai graças" é perceber que certas coisas menos boas nos acontecem com a permissão de Deus e com um propósito. E que Aquele que começou a boa obra a possa completar (Fil. 1:4).

Sociedade

Por estes dias, o meu filho filho esteve internado no Hospital Amadora-Sintra e apercebi-me de algumas das coisas referidas neste artigo (clicar em cima da imagem). Apercebi-me, ainda, de meninos que não queriam ter alta, que queriam "ficar ali para sempre". Apercebi-me da preocupação de quem vê os dias de internamento sucederem-se e a alta dos seus filhos sem chegar... patrões a telefonar para fazer pressão... mães a sussurrar "Ai que eu vou perder o meu emprego...". Muito preocupante.

11 de junho de 2013

1 ano

"Olhos verdes, lindos como rebanhos, de pele fofinha como a minha mãe é", foi o 'poema' que um dia lhe dediquei, bem pequenina, mal aprendi a escrever. Ela guardava o papel onde escrevi esse poema na sua mala e emocionava-se sempre que o lia. Era assim a minha mãe. Há um ano atrás vivi o dia mais difícil da minha vida, enquanto ela viveu o mais feliz da sua. Há um ano que se acabaram as lágrimas, as dores. Foi para a "Linda Pátria" viver com o nosso Deus. Todos os dias me lembro da minha mãe, sempre com muito amor e saudade. Agradeço a Deus pelo tempo que a tive comigo e por tudo o que me ensinou e que tanto marcou a minha vida. Até um dia, mamã!

30 de maio de 2013

Pessoas bonitas 2

Depois de uma semana a viajar pelo Oceano Atlântico, finalmente havia chegado aos Açores o contentor com o recheio da casa da família pastoral que nos substituiu. Ainda lá estávamos quando chegou a carga e pudemos acompanhar a abertura dos caixotes. Uma das primeiras coisas a abrir foram as caixas com as coisas de cozinha. Eram tudo coisas bonitas e novas, pois este casal ainda tem pouquinhos anos de casados. Alguns pratos tinham sido até pintados à mão pela esposa do pastor. Mas, quando ela começou a retirar as coisas dos caixotes estavam muitas coisas partidas… uma e outra… e mais outra… e outra… (até me doía o peito… era peça atrás de peça, tudo em caquinhos). Sei bem o que custa, também já perdi e estraguei coisas em mudanças… e quando são novas é uma dor. Mas, curiosamente, a Liliana, muito serena, ía depositando os cacos no lixo e dizia que não fazia mal, que não era apegada às coisas… e sorria… e lá depositava mais uns quantos cacos no lixo. Que delícia! Nunca esquecerei este episódio e do pensamento que tive naquele momento “Ela tem apego àquilo que realmente importa...um coração no sítio certo".

Pessoas bonitas 1

A minha avó era uma pessoa única. E uma das coisas giras que recordo dela era uma frase que costumava dizer e que revela bem o que é uma pessoa grata, simples e satisfeita com o que Deus lhe dá. Com um ar orgulhoso, dizia assim: “Gosto muito da minha casa, pois consigo aspirar a casa toda com o aspirador sempre ligado na mesma tomada!” 

26 de maio de 2013

Queluz

Lembro-me de o meu marido e eu termos partilhado diversas vezes, ainda nos Açores, que dificilmente iríamos ser tão amados e tão estimados como fomos naquele lugar. "Nunca mais iremos encontrar uma igreja assim". Mas nunca se deve dizer nunca. Sei que ainda só estamos em Queluz há menos de quatro meses, mas o amor, a amizade e o carinho destes irmãos para com a nossa família chega a ser comovente. Somos muito felizes em Queluz. E damos muitas graças a Deus por isso. É tão maravilhoso ver este amor crescer de parte a parte. Muitas vezes, enquanto escuto os irmãos, ou mesmo apenas enquanto os observo sem que se apercebam, sinto-me como Jesus naquela passagem do jovem rico "Jesus olhou para ele e o amou". Só Deus pode dar-nos este amor tão profundo pelas vidas. Um amor consciente, que sabe que as pessoas não são perfeitas (como o jovem rico não o era), mas que sabe que as pessoas precisam tanto de Jesus como eu. Se há coisa em que desejo crescer mais e mais à semelhança de Jesus é neste olhar, neste amor pelas vidas. E que a igreja de Queluz possa também continuar a crescer muito neste amor que faz querer juntar, abraçar, unir corações a Jesus e deixá-Lo transformar-nos à Sua semelhança. 

21 de maio de 2013

Estudo "acompanhado"


Por força das circunstâncias, voltei a ter de estudar. Mas estudar aos 35 anos e com filhos a circundar-me dá nisto... Uns sublinhados muito originais :)

18 de maio de 2013

Pati

Enquanto estive nos Açores, uma das coisas que mais me custava era ouvir a minha irmã dizer-me que tinha muita pena de viver longe de mim e que os nossos filhos não pudessem crescer juntos. Doía-me coração quando ela dizia isto. Mas quis Deus que nos voltássemos a reunir. A minha irmã fez 40 anos por estes dias e amanhã, se Deus quiser, vou poder vê-la soprar as velas, junto da restante família. São momentos que não têm preço. Que Deus te abençoe sempre muito, mana. Continuas uma menina :)

17 de maio de 2013

Isaac

Durante anos aquele homem esperou que Deus que lhe desse um filho. A sua mulher era estéril e, entretanto, já avançada em idade. Mas Deus fez um milagre na vida daquele casal e deu-lhes Isaac. Imagino o que este menino representava para os pais... Tão amado que ele devia ser! Um dia, Deus pediu a Abraão que lhe desse o seu filho Isaac. Às vezes, Deus toca nas coisas mais preciosas da nossa vida. Não é nada fácil, nem simples de entender. Mas é sempre por um bom propósito, percebemos mais à frente. Abraão, surpreendemente, pôs o Seu filho à diposição da Vontade do Senhor. Afinal, o amor que tinha por Isaac - e que era tão imenso - não era maior do que o amor que tinha por Deus. Mas Deus não queria Isaac, só queria ver onde estava o coração de Abraão. Deus devolveu-lhe o filho (e quando Deus devolve uma coisa ainda acrescenta bençãos). Tenho-me lembrado muito desta história ultimamente, pois Deus tem-me pedido alguns "Isaacs" da minha vida. Alguns deles tenho esperança que me sejam devolvidos (mas, se assim não for, aceitarei a Sua soberana vontade), outros "Isaacs" o Senhor quis mesmo e quer mesmo tomar para si (é porque é melhor assim). "Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito", diz a Bíblia. E esta verdade, por vezes  tão dura de viver na prática, é tremenda e transforma-nos completamente. Ainda bem que Deus nos pede os nossos "Isaacs" e não nos deixa acomodar. Pois é no centro da Sua vontade que encontramos a verdadeira felicidade.

16 de maio de 2013

Imaginação fértil

Há algum tempo atrás, o meu filho mais velho, muito angustiado, dizia-nos não saber o que escrever quando lhe pedem para fazer uma composição. Explicámos-lhe que devia descontrair e deixar a imaginação fluir. Pois bem, por estes dias o trabalho de casa era escrever um postal. Quando olhei para o postal que ele escreveu, dizia assim: "Olá Tomás! Estou de férias na selva e vi um leão a dançar um tango..." Ontem, o trabalho de casa foi novamente um postal. Quando li o que escreveu, eis que dizia: "Caro José, estou a escrever-te das zonas frias do Ártico. Os pinguins são lindos e muito disparatados. Volto amanhã às 15h53. Um abraço." 
Haja imaginação! (lol)

Continentalização

Oito anos longe da vida continental é muita coisa. Ainda me estou a adaptar às novidades que vou descobrindo aqui e ali. Por exemplo, no Pingo Doce só se paga com multibanco partir de 20 euros em compras. Sacos já quase ninguém dá, só vendem. Enfim, uma série de pormenores que no Faial inexistem. Mas ontem aprendi uma nova, num café do Parque das Nações. A dada altura, apercebi-me que alguém pediu um "café sem princípio". Sem princípio? O que é isso? A explicação imediata que me deram foi esclarecedora: "Então, um café sem princípio é um café sem o princípio!" Fiquei um pouco baralhada, mas depois de pensar uns segundos, lá percebi "Ah! É um carioca!" Mas, não. A minha conclusão estava totalmente errada. É que não tem nada a ver. Um carioca é o resto do café, é fraquinho. Um café sem princípio é um café igual aos outros, mas em que a pequena chávena só é colocada debaixo da bica da máquina depois de já ter corrido o primeiro jacto de café, que se despediça. Tem a sua arte! Enfim, e foi assim que aprendi que em Portugal continental já há cafés sem princípios.
(Estamos sempre a aprender)

1 de maio de 2013

Famílias

Quando sabemos que o fim dos nossos dias está próximo, somos levados a fazer um balanço do que foi a nossa história e reconhecemos aquilo que é realmente importante na vida. Há mais ou menos um ano atrás, estava eu sentada à cabeceira da cama da minha mãe, ouvindo-a falar sobre a sua experiência como mãe de três filhos, quando, a certa altura, disse-me muito emocionada que lutou muito, mas que gostava de poder ter feito ainda mais pelos filhos. As mães pensam todas assim. Mas, no caso da minha mãe, aquilo que é mais importante nesta vida ela conseguiu dar aos filhos. "Mamã, tu fizeste um bom trabalho. Deus deu-te três filhos e todos eles são crentes". Senti o seu assentimento no sorriso emocionado que me devolveu. Uma das coisas que gosto muito na Igreja de Queluz é de ver pais, com os filhos e netos juntos nos culto, partilhando bancos. Mais ainda, alguns desses pais são também eles filhos e até netos de crentes fiéis, que já partiram para o Senhor. Isto é uma bênção muito grande, ver as crianças e os jovens a crescer sob o ensino bíblico, inseridas em famílias cristãs. Há exceções, é certo. Mas as famílias da igreja começaram, há cerca de uma semana atrás, a orar umas pelas outras. Cada família ora por outra família. Cá em casa oramos pela família do irmão Vicente. Por isso, acredito que Deus há-de completar a obra que iniciou em cada lar. E, no Seu tempo, mais vidas serão alcançadas pelo amor transformador de Jesus.

Nova etapa

Há sete anos e meio que tínhamos o berço no nosso quarto. Nunca o chegámos a desmontar pois havia sempre um novo bebé para o ocupar. Esta semana, o nosso filho mais novo passou para o quarto dos irmãos (a pedido destes). Ainda pensámos que ía ser "sol de pouca dura" e que, logo, logo, voltaria a querer dormir no nosso quarto. Qual quê! É o primeiro a adormecer e dorme a noite toda com os irmãos. No sítio do berço ficou um vazio, mas no quarto do lado a lotação está esgotada. Creio que passámos para uma nova fase: a fase dos filhos crescidos.

23 de abril de 2013

18 de abril de 2013

Adaptação

Já se passaram dois meses desde que deixámos os Açores. Creio que a adaptação à nova vida no continente tem, no geral, corrido muito bem. Há sempre dificuldades que vão surgindo e que, com calma e na dependência de Deus, vamos ultrapassando. Ainda não regressei ao meu trabalho, encontrando-me ainda a aguardar pela conclusão do meu processo de transferência para cá. Um atraso que não estava previsto, mas que Deus permitiu que acontecesse. E, na verdade, tem sido até bom poder estar em casa, pois tenho podido acompanhar os meus filhos, o meu marido e a igreja de uma forma muito especial. Mas continuamos em oração pelo meu trabalho e que tudo se possa resolver. Os meninos estão já integrados na escola e na igreja, apesar de ainda falarem muito dos Açores e dos amigos que lá deixaram. Às vezes, é difícil ouvi-los falar das saudades. Há dias, o meu filho falava com o seu melhor amigo (pelo Skype), que era seu colega de turma, e perguntava-lhe: "Tá tudo bem na escola? Tens ído à igreja?". Parte o coração. Também nós lembramo-nos muito dos Açores, mas consolam-nos as boas notícias que temos recebido de lá, de como tudo vai bem, e do bom trabalho do novo pastor. A igreja está muito animada, unida e envolvida no serviço ao Senhor. Mas este tempo tem sido também muito especial para mim. Tenho tido tempo para reflectir,  para conhecer as pessoas e principalmente para aprender do Senhor. Coisas muito especiais já estão a acontecer e creio, de todo o coração, que grandes coisas vão acontecer. Para honra e glória de Deus!

:)

Poucos dias depois de chegarmos, o meu marido fez anos. Quando cortou o bolo, apercebi-me que o fez à "moda" açoriana: uma bola ao centro, a partir da qual são cortadas pequenas fatias. São marcas de oito anos de Açores, que provavelmente nos acompanharão para sempre.

10 de abril de 2013

2 anos

Foi há 2 anos atrás, no início de uma tarde de domingo, que nasceu o Tomás David, o nosso açoriano mais novo. É um menino doce, simpático, muito amado por todos. É difícil arranjar uma foto dele em que não esteja a comer uma bolacha ou um pedaço de pão (é um bom garfo). É apaixonado por baterias e bolas de futebol. Tem um sorriso meigo e ri-se também com os olhos. Já celebra o 2º aniversário no continente, onde já aprendeu a chamar elevadores e a andar em escadas rolantes. Deus te abençoe muito, querido filho. És um tesouro tão grande que só podemos mesmo agradecer muito a Deus por cada dia de vida que podemos partilhar ao teu lado. Que cresças sempre com muito amor e temor pelo nosso Deus.

6 de abril de 2013

Vida Nova

Ainda a respeito da Páscoa, vou aqui partilhar uma história. Passou-se comigo e creio que expressa bem aquilo que, para mim, a Páscoa representa: preço pago, absolvição, vitória, gratidão e vida nova. Estava no início do meu estágio, quando fui nomeada defensora de um homem que esteve envolvido num acidente de viação de que resultou a morte de um jovem casal. Um trauma muito grande. O acidente tinha acontecido há muitos anos atrás e, desde então, a vida daquele homem era um tormento. Durante todos aqueles anos, viveu uma depressão profunda, perdendo noites de sono, revivendo as cenas do acidente vezes sem conta, com uma culpa enorme sobre os ombros. Estava tão arrependido de ter feito a manobra que fez. Mas nada havia a fazer agora. Tentou evitar a justiça durante muito tempo, pois tinha medo de ser preso. Mas, no dia em que conversou comigo pela primeira vez, disse-me que estava cansado de resistir e de sofrer e que ía mesmo apresentar-se a julgamento. Preparei-me o melhor que pude para ajudar aquele homem e, chegado o dia, fomos presentes ao juiz. Ele tremia imenso, tomado pelo medo. Achava que ía ser condenado. Na sala de audiências, o Juiz abriu o processo, folheou, folheou... e, de repente, vira-se para nós e diz-nos que tinha havido uma amnistia (perdão) para os crimes daquele tipo que tivessem sido praticados há determinado número de anos atrás. Nunca esquecerei a expressão de alívio daquele homem... olhos marejados e um sorriso a querer esboçar-se... "Estou perdoado?" Sim, tinha sido perdoado. "Acabou, acabou a tortura", dizia-me à saída. "Agora, é vida nova". Páscoa é também isto. Fomos livres de uma condenação que era certa porque Alguém (Jesus Cristo) dispôs-se a receber essa condenação no nosso lugar. E cumpriu a pena. Pena de morte. Mas ressuscitou e somos vitoriosos Nele. Vida nova é o que Jesus oferece a quem se arrepende do mal que pratica. Uma vida de profunda gratidão e amor pelo Libertador.