26 de setembro de 2013

Sinónimos

"Voltar a trabalhar fora de casa" = "Acabou-se a roupa passada a ferro"
(lol)

23 de setembro de 2013

Testemunho


Quando, no ano passado, começámos a perceber que Deus nos estava a orientar no sentido de regressarmos ao continente para aqui servirmos a Sua igreja, houve um aspeto que, desde logo, nos fez refletir: o meu emprego. Depois de vários anos como contratada, eu tinha entrado recentemente para os quadros da Administração Pública – tinha um “emprego para a vida”. Decidimos entregar esse assunto nas mãos de Deus e continuámos a buscar a Sua vontade. Havia, porém, um pormenor muito delicado neste processo: é que as transferências dos Açores para o Continente estavam (e estão), na prática, “congeladas”. Logo, o mais certo seria eu não conseguir transferir-me e perder o meu vínculo. O Senhor acabou por nos levar a perceber que era mesmo para voltarmos e quando Deus fala só nos resta obedecer (pois a Sua vontade é sempre boa e perfeita). Assim sendo, falei com o meu chefe, expus a situação e comecei a tentar uma transferência para o continente. Começou então a surgir uma hipótese de transferência para Lisboa, mas sem certezas. Curiosamente, em fevereiro, no dia em que estávamos a sair da nossa casa nos Açores, para apanharmos o avião para Lisboa, o meu telemóvel tocou. Pousei as malas, atendi o telemóvel, e era o meu chefe a dizer que a transferência tinha sido autorizada. Percebemos que Deus estava no controlo da situação. Viemos para Lisboa em paz, eu iria começar a trabalhar em março. Porém, daí para a frente, o processo começou a embrulhar e a embrulhar, o que me levou a ter de meter uma licença sem vencimento até que tudo ficasse resolvido. Os meses foram-se passando e nunca mais se via uma luz ao fundo do túnel. Era uma assinatura que faltava, era um papel que tinha de ser junto, era um pormenor que tinha de ser retificado, o processo mais parecia não ter fim. A Igreja de Queluz foi extremosa durante todo este processo. Oraram por nós, sustentaram-nos, apoiaram-nos em tudo. A demora foi tanta que, a dada altura, comecei a temer que não se resolvesse mais. Decidi, então, candidatar-me a um concurso público - o curso de estudos avançados em gestão pública - que abriu aqui no continente e que, findo o qual, me daria acesso a um lugar na Administração Pública de cá. Pela graça de Deus, fiquei apurada neste concurso, mas, ainda antes do curso começar, a minha transferência dos Açores para Lisboa, finalmente, resolveu-se! Comecei a trabalhar na 6ªf passada, mantendo assim o meu vínculo e continuando ligada a um serviço que creio que vou gostar muito. Estou muito feliz e agradecida a Deus também pelos meses em que estive em casa, acompanhando o meu marido, os meus filhos e a igreja, nesta fase de adaptação ao continente e ao novo ministério. Nada aconteceu por acaso. Tudo aconteceu no tempo certo. Não foi fácil a espera, foi muito duro. Mas saímos desta experiência com uma visão ainda mais reforçada da soberania de Deus e da Sua fidelidade. Deus é BOM!

15 de setembro de 2013

Graça

No domingo passsado, assisti à tomada de posse do pastorado da Igreja Evangélica Baptista da Graça, em Lisboa, pelo pastor Jónatas Lopes. Saí de lá profundamente tocada com tudo o que vi e ouvi. Um jovem pastor, acompanhado da esposa e dois filhos pequeninos, deixou a igreja que estava a servir em Tondela e toda uma vida ali estabilizada, em obediência à nova orientação que recebeu do Senhor. Deixaram e nem olharam mais para trás, convictos de que Deus agora os quer na Graça. E enquanto decorria o culto, os meus olhos fugiram-me várias vezes para a expressão emocionada do pai do pastor, que também é pastor, e que procurava reter, em vão, as lágrimas. Conheço tão bem aquelas lágrimas de pai, que mesmo compreendendo as razões que movem o filho, sofre com a separação e com a incerteza do que o espera na nova missão. É duro para quem vai. É duro para quem fica. E enquanto olhava para aquele casal, cada um com um filho ao colo, consagrando-se ao ministério na Graça, cheios de amor à obra de Deus, o meu coração foi abençoado. Que imagem tão poderosa! Não há nada neste mundo que prenda um servo do Senhor, nem mesmo uma vida estabilizada. Isto é amor ao Evangelho de Cristo. Quando vínhamos embora, descendo aquelas ruas íngremes da Graça, com o rio ao fundo, o meu marido, pensativo, partilhava comigo: "O Evangelho é loucura!" E é mesmo. Que sã loucura! Que Deus seja com esta família neste novo desafio ministerial. Quanto a mim, já comecei a ser abençoada com a vinda deles para Lisboa. Que Deus os use para Sua glória.

13 de setembro de 2013

Crianças

Durante as nossas férias, também estivemos no acampamento familiar. Ali chegada, vi imensas crianças a brincar nos baloiços (estavam mais de 40 crianças neste acampamento). Comecei a observá-las e a reconhecer os seus rostos (que só conhecia de fotografias). Aproximei-me dos baloiços e procurei conhecê-las pessoalmente. O 1º menino que conheci, de dois anos de idade, muito castiço, em resposta à pergunta "como te chamas?", respondeu desta forma deliciosa e assertiva: "Paulinho Ribeiro". De seguida, aproximei-me de uma menina que brincava noutro baloiço. Reconheci logo o rosto dela, pois quando era pequenina esteve no Faial, com a sua mãe, de visita. O rosto era o mesmo, mas estava muito maior. "Quantos anos tens, Sara?" Ela, muito despachada, responde-me assim: "Tenho cinco, mas visto roupa de quatro!" Esta nova geração de baptistas promete :)

11 de setembro de 2013

Memórias

Ninguém contava histórias como ela. Era um dom que tinha. Quando começava a contar uma história, conseguia captar todas as atenções. Ficava um silêncio absoluto. Ninguém pestanejava. As suas palavras eram muito exageradas e dramáticas em relação à história tal como ela se tinha passado. Mas é assim que as histórias ficam com mais graça. Os diálogos eram contados em discurso direto, com voz de homem ou de mulher, conforme o caso (e isto era de rir a bom rir), com sotaques, gestos e todos os pormenores. E tudo isto com muitas pausas, muito suspense. Uma das histórias que cresci a ouvir foi, por exemplo, a do meu nascimento. Todos esperavam um "Bernardo" (eu ainda sou do tempo em que não se faziam ecografias), mas ela não se importava que fosse outra menina. Nasci como um rapaz, pois os rapazes nascem com o rosto virado para baixo e as meninas com o rosto virado para cima (não sei se a ordem era exatamente esta, mas para ela esta era uma verdade científica), e assim enganei toda a gente até à última. Eu era feia de meter dó. Não tinha testa, o meu cabelo começava logo a seguir aos olhos. De tão feia que era, a minha mãe ficou toda a noite acordada a olhar para mim, a tentar perceber se eu era mesmo normal. Mas pôs-me sempre uma fita no cabelo e, aos poucos, o cabelo começou a recuar e lá ganhei dois dedos de testa. E por causa disto, nunca deixou fazerem-me uma franja, não fosse o cabelo tornar a avançar. Mas a parte da história que eu mais gostava era quando ela dizia que fui um presente que Deus lhe deu no dia dos seus 26 anos. Nasci no aniversário dela, dia 12 de setembro. Ela nasceu às 10h da manhã e eu às 10h da noite. Nasci numa clínica e custei seis contos, hoje trinta euros. Cresci a ouvir estas histórias hilariantes que me enchiam de sorrisos. Tão exagerada que era! Este vai ser o 2º aniversário em que a minha mãe já não me acompanhará. Faria 62, mas quis Deus tomá-la aos 60. Cada vez a recordo com menos dor e mais sorrisos. Mas sempre com muitas saudades. Está com Jesus, o nosso Jesus. O reencontro é certo. Ficam estas doces memórias da filha que nunca teve coragem de fazer uma franja. 

Jovens

Durante as nossas férias, estivemos a colaborar no acampamento de jovens, em Água de Madeiros. O acampamento estava lotado, participaram mais de cento e quinze jovens, salvo erro. Foi uma semana muito especial, muito abençoada. Os pastores Jónatas Lopes e Rui Sabino, conduzidos por Deus, levaram os jovens a reflectir no tema "Cristo, a medida de todas as coisas". Os jovens tomaram decisões muito importantes neste acampamento, houve conversões e decisões pelo ministério.Glória a Deus por isso! Este ano, pude participar de uma forma mais intensa, dando uma palestra só para meninas (os rapazes tiveram uma palestra à parte, com o pastor Jónatas Lopes). Falámos sobre a Mulher Virtuosa de que a Bíblia nos fala. Estas coisas não são fáceis para mim, que sou pessoa introvertida, mas pela graça de Deus correu tão bem que as meninas pediram um "encore" e realizámos mais uma sessão no último dia. Muitas perguntas foram colocadas por estas jovens. Fiquei de coração cheio por notar o interesse e a avidez destas meninas em querer conhecer a vontade de Deus para a mulher. Fui muito abençoada por estas meninas.  E que a Palavra  de Deus as possa ter tocado no seu íntimo, pois só pelo temor a Deus e na força do Seu Espírito conseguiremos ser mulheres virtuosas. Nunca esquecerei esta experiência. Que Deus guarde cada um destes jovens.

 Palestra das meninas


Palestra dos rapazes

7 de setembro de 2013

De volta

No próximo domingo, fará sete meses que regressámos ao continente (como o tempo passa...). A nossa vida e os nossos corações pertencem cada vez mais a este lugar e a estas pessoas. Já sentimos as ruas como "nossas", já nos sentimos "em casa". Este mês, a igreja proporcionou-nos um mês completo de férias e estamos muito gratos a Deus por este tempo de descanso e reflexão. Foi mesmo muito importante para nós. Este foi um ano de muitas e profundas mudanças. Damos muitas graças a Deus pela forma como todo este processo de adaptação tem decorrido, em especial no que se refere aos nossos filhos, que começam a fazer novos amigos e a gostar cada vez mais da vida aqui. É curioso que, durante as nossas férias, a dada altura partilhávamos que sentíamos saudades dos irmãos da igreja de Queluz. Já os amamos muito. Durante as férias, pudemos perceber a orientação de Deus para a igreja em diversas áreas e regressamos prontos para arregaçar mangas (e dobrar joelhos) para, em conjunto com os nossos irmãos, servir o nosso Deus neste lugar. Volto de férias também com o desejo de dedicar mais algum tempo ao blogue. Espero conseguir. Até breve!

4 de agosto de 2013

Linguagem rebuscada

O meu filho Miguel, enquanto conversava com a minha irmã a respeito dos graus de parentesco, sai-se com esta: “Eu tenho muitas tias, mas só tenho um tio..." E conclui: "O tio Gustavo é o meu tio unigénito!”

21 de julho de 2013

ABA

Durante este final de semana realizou-se a 33ª Assembleia Geral da Associação Baptista Açoriana (ABA), na ilha Terceira, com o tema "Chamados para servir juntos!". O meu marido está por lá desde 5ª feira passada, na qualidade de orador convidado. Pelo que soube,  tem sido um tempo muito abençoado. Hoje, no culto da manhã, converteu-se uma senhora. É uma alegria muito grande receber estas notícias tão boas, compensa de sobra todas as saudades do meu marido, que amanhã, querendo Deus, estará de volta! E é também muito bom ver como o nosso Deus continua a alcançar aquelas pequenas ilhas, onde vivem pessoas tão amadas pelo Senhor. Deus seja sempre louvado!

17 de julho de 2013

Pedido de oração

Uma vez no meu coração, para sempre no meu coração. É assim o meu sentimento pelos adolescentes e jovens baptistas da Horta. Eram tão pequeninos quando os conheci... Hoje são jovens lindos e com um coração no Senhor. Desde 2ªf passada que os adolescentes e jovens dos Açores estão num acampamento na Ilha Terceira (cartaz acima). Estão com o Pastor Ismael Couto e outros queridos líderes, pelos quais peço que se juntem a nós em oração. Pelo que sei está um bom grupo e há ali jovens que ainda não se entregaram a Jesus. Que este acampamento seja marcante para estes jovens e que possam comprometer-se profundamente com este Deus Incrível!

16 de julho de 2013

Os 18 baptizandos

Foto tirada do blogue da (Eu)Nice.

Festa em Queluz e Festa no Céu

No domingo passado, a igreja Evangélica Baptista de Queluz celebrou 59 anos de vida, num culto maravilhoso, cheio de emoções fortes. Não sei dizer quantas pessoas estavam, era a perder de vista, muitas assistiram ao culto de pé. O querido pastor João Rosa de Oliveira e a sua esposa, Lídia Machado de Oliveira, foram homenageados neste culto, tendo o pastor Oliveira sido reconhecido como pastor emérito da Igreja de Queluz. Houve diversas participações, todas muito tocantes, muito espirituais. Palavras inesquecíveis foram ditas neste culto. Dezoito vidas foram baptizadas (quinze de Queluz e três da Igreja Baptista de Belas, que se juntou a nós nesta festa). O culto decorreu num ambiente de profunda gratidão a Deus e de alegria contagiante. Eram tantos baptismos que, a certa altura, a minha filha perguntou-me: "Mamã, o pai vai baptizar toda a gente?" O Pastor Rubens Luz, da Igreja de Belas, entregou a Palavra do Senhor. No final do culto, dois meninos aceitaram Jesus como seu Senhor e Salvador e oraram de joelhos, consagrando-Lhe as suas vidas. Os nossos corações estão cheios! Deus é maravilhoso! E que o nosso Deus dê muitos e muitos anos de vida a esta querida igreja, acrescentado-lhe a cada dia os que se hão-de salvar.

10 de julho de 2013

Cristiana

No domingo passado, enquanto servíamos o Senhor num dia cheíssimo de atividades: culto de manhã,  seguido da participação no culto do 31º aniversário da Igreja Baptista das Boas Novas, do Pastor Leal, no Borel - Amadora, e, já ao final da tarde, uma assembleia da nossa igreja onde foram feitas 15 profissões de fé (para a assembleia já não pude ficar, para poupar os meus filhos), no meio de tudo isto, acontecia algo maravilhoso a alguns quilómetros de distância.
Tinha acabado de entrar em casa com os miúdos quando recebi uma chamada no telemóvel. Era a minha sobrinha mais velha, que também é minha afilhada. Tem nove anos e meio; pertence, com os pais, a uma Assembleia de Deus. Com a sua voz  doce, disse-me assim: “-Tia Didi, eu hoje aceitei Jesus como meu Senhor e Salvador.” Senti uma alegria tão (mas tão) grande! As lágrimas não me largaram o resto do serão. O nosso Deus é tão poderoso… Ele opera em tantos lugares ao mesmo tempo… e enquanto o servimos, ele cuida dos nossos… Trabalhámos muito no domingo, mas Deus devolveu-nos tudo isso com uma bênção sem medida: a conversão da minha sobrinha. E assim se cumpriu a profecia que o nome desta menina encerra: ela é “cristã/de Cristo” (Cristiana).

8 de julho de 2013

Palavras que inspiram

Não são poucas as vezes que entro no gabinete do meu marido na igreja e que me lembro da primeira vez que ali entrei. Foi há 9 anos atrás, era aquele gabinete do pastor Tomi, que para além de pastor da igreja de Queluz, era também presidente da Convenção Baptista Portuguesa. E foi nessa segunda qualidade que, naquele dia, recebeu o meu marido e eu, para falarmos sobre os Açores. Lembro-me como se fosse hoje. Enquanto nos explicava as necessidades e as lutas tão grandes do trabalho do Senhor no Faial, recordo-me de pensar no meu íntimo que aquilo era “areia a mais para a minha camioneta” e que, certamente, aquela igreja precisava de uma esposa de pastor com um perfil muito diferente do meu. Eu falo pouco. Eu quase nem falo. E, curiosamente, enquanto pensava nisto, o pastor Tomi disse assim: “Creio que a Adriana, com a sua maneira de ser, poderá ser a esposa de pastor discreta e que promove a união, que é o que esta igreja precisa.” Fiquei tão surpreendida com estas palavras que penso que nem devo ter pestanejado enquanto as ouvi. Mas a verdade é que eu acreditei nisto e creio mesmo que foram palavras de sabedoria. Nos oito anos de serviço nos Açores, lembrei-me muitas vezes destas palavras. Para mim, foram palavras de edificação e encorajamento. Podemos achar que não temos dons extraordinários, mas quando nos colocamos nas mãos do Senhor, o amor de Jesus em nós faz verdadeiros milagres. Deixei nos Açores mais do que irmãos na fé, deixei amigos do peito. E mesmo fora da igreja, mais outros tantos amigos do peito. Muitos. Verdadeiros amigos. Como é importante termos servos do Senhor que nos inspirem com palavras de sabedoria. Esta é uma dívida de gratidão que guardo para com o pastor Tomi. E que, agora, também na igreja de Queluz, o Senhor me dê sempre renovada sabedoria para saber colocar-me nas Suas mãos e recordar-me que, só assim, poderão acontecer milagres.

5 de julho de 2013

26 de junho de 2013

Josias

Estava a Mariana a contar ao pai a lição que aprendeu no domingo, na escola bíblica dominical, e sai-se com esta:
"O rei Josias era muito pequeno quando ficou rei. Ele era filho de um rei mau. O pai dele fazia muitas coisas más... ele mordia, empurrava, gritava, mostrava o rabo aos seus amigos...".
(lol)

:)

Meio perdida em Lisboa, aproximo-me de um engraxador de sapatos e pergunto: “- Bom dia! O Senhor sabe indicar-me onde fica a Rua Filipe Folque?”
Ele: “- Sei sim. A menina está a ver este prédio velho, grande, bege?”
Eu: “- Sim.”
Ele: “- Então esqueça o prédio velho e preste atenção ao prédio novo que está ao lado.”
Eu (meio confusa): “Ok…”
Ele: “- Por baixo do prédio novo há uma seguradora. Esqueça a seguradora e passe ao lado.”
Eu: “- Ok…”
Ele: “- Logo a seguir encontra uma transversal. Faça como se a transversal não existisse e siga seeeempre em frente.”
Eu (já com vontade de rir): “- Ok…”
Ele: “- A seguir, vai encontrar uma farmácia. Ignore a farmácia e siga em frente.”
Eu (a não poder mais): “- Certo…”
Ele: “- Depois encontra outra transversal. E, pronto, agora é ver se nessa transversal é à direita ou à esquerda, depende do número da casa para onde quer ir.”
Agradeci ao senhor e lá fui eu, meia atordoada com a explicação. Afinal de contas, tudo se poderia ter resumido a um simples: “Fica na 2ª rua à direita”. Os portugueses são únicos.

20 de junho de 2013

Corvo

Este texto (que já saiu no Jornal de Letras em  2011), descobri-o agora pela mão da minha amiga D.Lídia Oliveira. É um pequeno relato da passagem da escritora Alice Vieira pela Ilha do Corvo. A mais ocidental e a mais pequena ilha do arquipélago, onde vivem apenas cerca de 400 pessoas. Não tive oportunidade de conhecer o Corvo, mas conheci corvinos e muitas destas histórias. Não deixa de ser uma perspectiva pessoal, mas é muito interessante.
Aqui fica um pouco deste texto:
"Cheguei ao fim do mundo. (...) No mesmo avião veio D. Manual Martins, antigo bispo de Setúbal. Diz-me que o padre da terra, que ele nem conhece, precisou de ir tratar-se aos EUA e lhe telefonou a pedir que que o substituísse uma semana. E ele veio. Sou recebida na pista por um senhor que acarta a minha mala, e logo me enfia para dentro de um carro que já viu melhores dias. Diz-me que é na casa dele que vou ficar, porque Outubro é o mês em que a ilha se enche de ornitólogos em cata de aves em trânsito, e é difícil arranjar camas vagas. De repente dá uma gargalhada, apontando para as minhas mãos desesperadamente em busca do cinto de segurança; - Não há! Aqui no Corvo não se usa. Nem capacetes nas motorizadas, nem nada disso... (...) Quero organizar o trabalho para os dias seguintes, e peço um táxi para me levar de manhã a dar uma volta pela ilha. Um sorriso de olha-para-a-esperta-que-vem-do-continente, e logo a resposta: no Corvo não há táxis, nem transportes públicos, e a frota automóvel existente resume-se a meia dúzia de carros particulares, ou nem tanto. Depois há motorizadas, e algumas carrinhas de caixa aberta, onde as pessoas levam o necessário para irem para as terras. E uma tabacaria para comprar jornais? Jornais não há, tabacarias também não. E juro que lhe senti um leve orgulho na voz quando, a seguir a todas as minhas perguntas ("E lojas? E mercado?, etc) ele ia respondendo "não há, não há..." (...) Indica-me onde vou tomar as refeições todos os dias e, já vai a sair, quando lhe peço uma chave de casa, para eu não estar sempre a incomodar quando entro ou saio. Novo sorriso: - No Corvo não há chaves. As portas ficam todas no trinco. (...) Ao almoço (parece que toda a gente come no café da Teresinha), D. Manuel Martins recorda-me que hoje é dia de procissão. Apesar de já ter estado no Corvo, D. Manuel Martins admira-se sempre da pouca frequência nas missas, e da pouca alegria: "Ninguém canta!". (...) Depois da missa das oito da noite, a procissão percorre rapidamente as duas ruas da vila.(...) o entusiasmo não é muito, até porque a maioria é muito velha, as mulheres arrastam-se com dificuldade. (...) À cabeça da procissão, D. Manuel pára muitas vezes para olhar para trás. Numa procissão normal, o padre vem sempre no fim. Mas aqui também deve ser diferente. E por isso ele olha para trás, e faz pausas, para que ninguém fique pelo caminho."Este padre é pequenino, mas anda tão depressa...", murmura uma velhota ao meu lado, dobrada sobre a bengala.
Janto no sítio do costume, a ver na televisão o Benfica ganhar dois zero ao Portimonense. Os homens estão todos lá fora, a fumar. Benfica e Portimonense devem dizer-lhes tão pouco. (...) Afinal de que precisamos para viver? Isto perguntava-me eu, nas primeiras horas de aqui chegar - convencida de que iria encontrar, no meio deste isolamento, uma sociedade ainda não contaminada pelos males do consumo. Rapidamente me fazem descer à terra: estou na sociedade mais desenfreadamente consumista que conheço. Tudo se compra - por encomendas de catálogo, pela lancha que vai às Flores e ao Faial, pela net. A dependência da eletricidade é total. A televisão domina tudo. Todas as casas têm arca frigorifica, televisor último grito, computador, micro-ondas, etc. Se algum tem - todos os outros compram a seguir. E há sempre alguém que vende qualquer coisa: fico a saber, por exemplo, que a Teresinha vende Bimby's que são, ao que parece um sucesso. (...) Aqui ninguém passa fome e, se não há ricos, também não há pobres. Dizem-me que cada corvino tem um lote de terreno e uma vaca.(...) Trabalha-se, pesca-se, à noite vê-se a novela, e os mais novos bebem cerveja nos bombeiros. São um povo estranho. Fechado, pouco simpático, sem tradições de convívio. (...) Estou de partida. D. Manuel regressa também. De todas as conversas que mantivemos, há uma que não me sai da memória: "Eu acho que esta gente não vai muito à igreja porque não sente necessidade. Eles passam a vida neste isolamento todo, nesta lonjura, neste silêncio, nesta imensidão, estão todos os dias em contacto com Deus. Para quê irem à igreja à procura de um Deus formatado?" Quero acreditar que sim. Mas também não me sai da cabeça aquela frase de Raul Brandão, no seu texto sobre o Corvo: "Se não fossem cristãos, matavam-se uns aos outros."

Agradecimento

Ainda sobre o internamento do meu filho no Hospital Amadora-Sintra, tenho a registar que foi muitíssimo bem atendido, salientando o carinho com que foi tratado por parte dos médicos, enfermeiros e auxiliares. Um ponto alto foi o dia em que recebemos a visita de dois palhaços (um deles apresentou-se como sendo o "Dr. Chocapic"), da 'Operação Nariz Vermelho'. Ri a bom rir. Bem-hajam!
(foto tirada do site www.narizvemelho.pt)

18 de junho de 2013

Agradecer tudo

"Em tudo dai graças", no bom e no mau, foi das primeiras coisas que aprendi na igreja. Mas porquê agradecer a Deus pelas coisas más que nos acontecem? "Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco" (I Tess. 5:18). Recentemente, decidi  inscrever-me num determinado curso.  As circunstâncias que me levaram a inscrever naquele curso não foram boas, pois prendem-se com a busca de alternativas profissionais, num momento em que continuo sem trabalhar. Mas, curiosamente, nesse curso vim a reencontrar uma antiga colega de faculdade, com quem não tinha contato há mais de dez anos.  Durante cerca de três semanas, passei bastante tempo com essa colega, com quem almoçava todos os dias. Um dos assuntos que, naturalmente, nos acompanhou nesses almoços foi a fé cristã. "Desculpa-me fazer tantas perguntas sobre a tua igreja..." - dizia-me ela (e eu toda contente). Disse-me que acha que não crê em Deus, mas que também não tem a certeza... Expliquei-lhe que todos sentimos "falta" de Deus nas nossas vidas, pois fomos criados para ter um relacionamento com Deus e que quando Ele não está na nossa vida fica um vazio enorme... Terminado o curso, ela recebeu o resultado de um exame médico que a remeteu para o IPO. Havia um propósito naquele curso. A minha colega tem agora pessoas que oram por ela. Também por estes dias, passei quatro noites no hospital a acompanhar o meu filho. Uma das mães com quem partilhei quarto conversou bastante comigo e ficou até uma certa amizade entre nós. Aquela mulher passa todos os dias na rua da nossa igreja, mas não sabia qual a nossa fé. Ficou admirada de eu ser portuguesa, pensava que os evangélicos eram todos brasileiros. Convidei-a a visitar-nos um dia. Ela não me disse que sim, mas também não disse que não. "Em tudo dai graças" é perceber que certas coisas menos boas nos acontecem com a permissão de Deus e com um propósito. E que Aquele que começou a boa obra a possa completar (Fil. 1:4).