6 de fevereiro de 2007

O despertar da pronúncia

Quando o vou buscar à ama, vem a chamar-me "mamãin", em vez de "mamã". Com calma, procuro ensiná-lo que se diz "mamã", apenas. Mas começo a desconfiar que esta é uma luta que, mais tarde ou mais cedo, vou acabar por perder. Os coleguinhas com quem ele passa o dia todo não são continentais (tenho de me convencer disso).

Mateus

Estava a conversar trivialidades com uma açoriana, quando a certa altura comentei que eu nasci num dia 12 e o meu filho nasceu a 21 (os mesmos números ao contrário). Mal acabei de dizer isto, ela disse-me logo muito depressa: “O seu filho devia chamar-se Mateus!” (Mateus? Mas a que propósito? Até é um nome bíblico, mas não está assim lá muito na moda, pensei eu)
E continuou: “O seu filho nasceu no dia de São Mateus!” (pronto, está explicado)
O curioso desta história, é que aquela açoriana é uma rapariga nova, na casa dos trinta. Independentemente das pessoas daqui serem ou não muito praticantes (e, pelo que me tenho apercebido, o Faial é a ilha menos fervorosa) a tradição católica é ainda uma marca muito forte nos açorianos.

5 de fevereiro de 2007

Ultrapassagem perigosa

Nesta terra, é muito comum termos de fazer ultrapassagens a vacas (ainda hoje de manhã fiz uma). Isto requer alguma técnica! No início, ultrapassava vacas como quem ultrapassa automóveis: pisca para a esquerda, pé no acelarador e cá vai disto. Mas não é assim que se ultrapassam as ditas cujas. Aprendi esta lição numa bela manhã em que ía atrasada para o emprego. Ía lançada na estrada, quando, de repente, vi o meu vizinho com as suas vaquinhas. Sem abrandar, ultrapassei-as. As vacas ficaram agitadas e o meu vizinho gritou "Ó vizinha, CALMA! CALMA!!" Eu fiquei tão embaraçada que fui até ao fim da rua a pedir-lhe desculpa com o braço levantado!
Agora já sei como se faz: pisca para a esquerda e, bem devagarinho, ultrapassam-se as vaquinhas. (Estamos sempre a aprender)

4 de fevereiro de 2007

Massa sovada

É das melhores coisas que descobrimos nos Açores e já não sabemos viver sem ela. Tem um papel semelhante ao do pão. Tanto pode ser comida com manteiga, queijo, fiambre, doce, etc., como pode servir de acompanhamento numa refeição. Há dias, o meu marido trouxe uma massa sovada (ainda quentinha) da padaria e comemos quase metade, ao lanche. Um abuso!
Também nisto o nosso filho revela ser um açoriano. Gosta muito de massa ("pã") e de "queixe" (queijo).

Dia das de amigas

Por volta das 20h00, encontrámo-nos todas na casa de uma amiga comum. Cada uma levou um doce ou um salgado. Eu levei um frango, que até foi elogiado, mas como sou crente e não devo mentir, tive de lhes dizer que foi comprado (não houve tempo para mais). Éramos um grupo de 12 mulheres. Conhecia seis delas (da igreja). As restantes eram amigas das minhas amigas. Uma delas explicou-me que: "Já há muitos anos que janto com estas amigas, neste dia. Agora que me converti e que tenho amigas novas, não podia deixar de as trazer." Disse-lhe que fez muito bem em trazê-las.
Antes de nos sentarmos à mesa, acompanharam-me todas numa oração. Conversámos, rimos, comemos, todas em volta da mesma mesa. Foi um convívio muito agradável. A certa altura, falou-se que estamos a fazer uma semana de oração na igreja. "É que, lá na igreja, nós oramos uns pelos outros"- explicou uma delas. Dali a pouco, uma das senhoras pediu para ler o nosso boletim (leu-o todo).
No final, levantámo-nos, demos as mãos e orámos todas juntas. Quando abrimos os olhos, três daquelas senhoras estavam a chorar. "Muito obrigada", disseram. "Um dia destes vou lá à igreja. Já estive para lá ir uma vez, mas depois não deu." - disse-me uma delas.
Vim para casa de boca aberta (literalmente) com o que Deus fez naquele jantar. Sem dúvida que a obra é Dele! Que o que se passou naquele jantar possa ser o começo de uma obra tremenda na vida daquelas mulheres.

2 de fevereiro de 2007

Da janela do meu quarto




...vejo o arranha-céus mais alto de Portugal.
(Pico: 2351 m de altura)

Uma data memorável

Faz hoje dois anos! Dois anos que chegámos de malas e bagagens. Dois anos que chegámos os três, a pensar que ainda éramos só dois (o nosso açoriano só é insular de nascimento). O recheio da nossa casa e o nosso carro já tinham partido de barco, de Lisboa, uma semana antes de nós, mas só viriam a chegar um dia ou dois depois de cá estarmos. Deixámos os pais, na Portela, em lágrimas. Deixámos irmãos, deixámos amigos, deixei o meu emprego, deixámos a nossa casa nova, deixei as minhas plantas… tudo ficou do outro lado do oceano, em obediência a uma Chamada.
Hoje, olho para trás, e vejo como Deus tem sido bom para nós. É certo que não temos aqui a família connosco, mas temos uma família espiritual tão amorosa e que nos acarinha tanto! Temos um filho que nos enche os dias de felicidade! Temos uma casa tão bonita… Não tenho as minhas plantas, mas quando abro as janelas, sou inundada por um tapete verde fascinante, que desce pelas montanhas que rodeiam a nossa casa. Somos felizes aqui e temos sentido muita alegria no ministério que Deus nos deu.
(e, confesso, por vezes já usamos expressões e falamos com entoações faialenses, apesar de no meu marido ser mais notório do que em mim ;)

Sabiam que...

...os Açores são a única zona da União Europeia onde se cultiva chá?

Ainda me faz impressão...

As portas de muitas casas serem de vidro.
(inclusivé, a nossa)

30 de janeiro de 2007

Relato de um fim-de-semana - parte III

Da Terceira para Ponta Delgada já correu melhor. Gosto muito de ir a PDL, já é a 3ª vez que lá vou, sempre em serviço.
E depois da sessão em que fui participar ter terminado, corri para o shopping! Tem Zara, Mango e tudo e tudo (e em saldos)! Não imaginam o delicioso que foi ouvir a rapariga que me atendeu no "Vitaminas & Companhia" a dizer o nome da minha sobremesa preferida: "Biuufet de friuutas".
O pior são sempre as saudades dos meus dois rapazainhes...
Entretanto, durante a minha ausência, nasceu a bebé da minha amiga. Bem-vinda, Ana!

Relato de um fim-de-semana - parte II

Faço o check-in e a hospedeira diz-me que, devido ao mau tempo, alteraram a rota do vôo e que, por isso, vamos ter de ir primeiro para a Terceira, esperar lá durante duas horas e só depois é que vamos para S.Miguel. "Mau..."- pensei eu (e pensei bem). A viagem foi um autêntico "shake-shake" (como se diz por aqui). O que ainda nos valeu, foi a equipa de miúdos do Marítimo ir no avião, que animaram o ambiente com uns "olés!", quando o avião abanava.
Quando aterrei na Terceira, perdoei logo a Sata, ao receber um vale de € 16,00 para ir almoçar.

29 de janeiro de 2007

Relato de um fim-de-semana - parte I

Mais uma deslocação em serviço. Desta vez para São Miguel. Como precisava de transporte de casa para o aeroporto e uma vez que tinha um 'calote' pendente para com o táxi nº 24, decidi "matar dois coelhos com uma cajadada só" e chamei o dito sr. taxista.
Como, por natureza, não sou grande comunicadora, puxei o típico tema do 'tempo', para quebrar o silêncio. "Hoje não está assim lá muito com tempo... o céu está muito nublado, está vento... vamos lá ver como é que se vai portar o avião..."
Ao dizer estas palavras, eu não podia imaginar o que vinha a seguir. O meu comentário funcionou como uma deixa para o taxista começar a relatar um conjunto de histórias macabras sobre viagens da Sata, absolutamente impróprias para quem tinha de fazer um check-in dali a quinze minutos! E, nos intervalos das histórias, dizia frases do tipo "Não vale a pena a gente ter medo! O que está guardado pr'á gente não o podemos ir pôr à porta do nosso vizinho!"
Quando parou o táxi nas partidas do aeroporto, deu-me a bagagem e despediu-se de mim assim: "E olhe, senhora, não vale a pena ir com medo! Afinal de contas, sabe o que é que a morte tem de bom? É que vamos deitadinhos!! he,he.."
(só a mim)

27 de janeiro de 2007

Indignação

Não há direito de, em promoção, nos fazerem pagar € 4,99 por uma Cerelac, de tamanho normal.
(O híper daqui é bem puxadinho)

26 de janeiro de 2007

Verde, a quanto obrigas!

Este Inverno tem sido um Inverno a valer. Já chegou a chover um mês seguido (dia e noite). Os ventos que sopram no Continente são uns mariquinhas perto dos ventos açorianos. Às vezes, até dá medo. A chuva daqui é pesada e interminável. O clima foi, sem dúvida, uma das coisas que mais estranhámos aqui nos Açores. Não é frio nem quente, mas é demasiado húmido. E, por vezes, a humidade é tão elevada que é difícil suportá-la. A zona onde vivemos fica num vale e é conhecida como uma das zonas mais húmidas da ilha. Por vezes, no Verão, o tempo fica tão abafado que até custa respirar. Agosto é o único mês do ano em que se pode dizer “faz bom tempo” (sem meter as mãos no fogo). O tempo é algo a que os açorianos dão muita importância. Dependem dele para fazer as suas vidas. Se o mar estiver muito bravo, os barcos não podem sair. Se houver muito nevoeiro e os ventos forem adversos, não há ‘Taps’ nem ‘Satas’ para ninguém (já me aconteceu). Mas se assim não fosse, os Açores não teriam aquele verde brilhante que não existe em mais nenhum outro lugar do mundo.
(e o verde do Faial é o mais bonito das 9 ilhas)

25 de janeiro de 2007

Caricato

Hoje tive uma reunião no serviço que foi, no mínimo, caricata. Estamos a fazer um inquérito aos açorianos que regressaram dos seus destinos de emigração. E o problema é este: estamos com dificuldade em cumprir o prazo que nos deram para concluir o estudo porque os funcionários não estão a conseguir fazer muitos inquéritos por dia. O motivo?
Quando lhes batem à porta, as pessoas convidam os funcionários para sentar, lanchar, mostram as divisões todas da casa, o quintal, a adega, convidam para beber um copo, partilham fotografias, etc.
Perante isto, não pude deixar de me oferecer para ajudar a fazer uns inquéritos...

Dia dos Amigos

Hoje, por todo o arquipélago, celebra-se o “dia dos amigos”. Como manda a tradição, hoje os homens vão todos jantar fora (sem mulheres, atenção!) e trocam presentes. O meu marido enviou-me agora uma mensagem a dizer que mais logo vai às codornizes com os amigos.
(“Codornizes”? Mas o que é que aconteceu com este continental em tão pouco tempo?)

A propósito do aborto

Foi das primeiras amigas que fiz na ilha. Recordo-me que engravidámos as duas na mesma altura. Dias depois de eu ter recebido a notícia de que ía ser mãe, o teste dela também deu positivo. Foi o acontecimento daquele início de ano (2005)! A partir daí, passámos a partilhar cada enjoo, cada indisposição e comparávamos o tamanho das barrigas (ao despique). A dela notava-se mais do que a minha. No dia da consulta das 12 semanas, ela recebeu uma triste notícia. O coração do bebé tinha parado de bater. Acabou por abortar espontaneamente. Acompanhei de perto a dor e o desgosto daquele casal. Não posso esquecer a expressão dela quando a visitei no recobro. Demos as mãos, trocámos algumas palavras de consolo e depois vim chorar para o corredor do hospital. Durante o resto da minha gravidez, ela olhava muitas vezes para a minha barriga e ficava em silêncio. Já depois do meu filho nascer, dei por ela, algumas vezes, a acarinhá-lo, emocionada.
Hoje, tenho a mesa do meu serviço cheia de trabalho: o meu e o dela. É que ela está em casa, de 39 semanas e tal… Vai ter uma menina, como era seu desejo. Que Deus te abençoe, minha amiga! Não vejo a hora de ver a tua bebé!

24 de janeiro de 2007

Mais um

"Hoje está outro dia triste"
"Os dias só são tristes se nós quisermos!"
(Tens toda a razão, querido)

Ai, se eu pudesse não trabalhar...

Agora deu em fazer beicinho quando o deixamos na ama.
É de cortar o coração...

23 de janeiro de 2007

Só no Faial!

Estava a chover muito, chamei um táxi. Quando chegámos à porta de casa, pedi ao taxista para esperar um bocadinho, para eu ir a casa buscar dinheiro.
Resposta: "A senhora nem pense voltar debaixo desta chuva só para me pagar! Vá para casa descansada!"
Eu: "Mas, mas..."
Taxista (sem me dar espaço para continuar a falar): "Um dia destes, se precisar de um táxi, chama-me e paga-me esta corrida."
Eu:"Mas... quanto é que eu fico a dever ao senhor?"
Taxista: "São € 4,50. Vá descansada!!"
(João Miguel, Táxi nº 24: quando vierem ao Faial, chamem por ele)