1 de março de 2012

9

Andava no meu último ano de faculdade. Era absolutamente solteira, vivia dedicada aos estudos. Há muitos anos que era assim. E nem pensava em compromissos. Havia de acontecer um dia, no tempo certo, pensava eu. Naquele dia, estava no casamento de uma amiga da igreja. A certa altura, a noiva decidiu atirar o ramo às meninas solteiras e, por força das circunstâncias, lá fui eu no grupo. Como sou uma pessoa introvertida, nada dada a estas coisas, fiquei assim mais para trás do aglomerado de mulheres, meio a esconder-me. Foi então que a noiva lançou o ramo a toda a velocidade (um ramo enorme, muito bonito) e, enquanto voava pelo ar, um grupo de rapazes gozões, fez em poucos segundos uma pirâmide humana. Lá no topo, o meu irmão, com muita graça, tentava apanhar o ramo. Mas o ramo passou-lhe ao lado, para riso geral, e enquanto eu própria ria às gargalhadas daquela cena toda, de repente - ZÁS - o ramo veio ter-me às mãos. Fiquei envergonhadíssima, já se sabe, cor de pimentão. A pergunta geral que se seguiu foi, naturalmente: “Então e o príncipe, onde está ele?” Eu ía sorrindo, encolhendo os ombros, até que a minha irmã respondeu em minha defesa: “Assim como o ramo lhe veio cair às mãos, o príncipe também lhe há-de vir ter às mãos.” E assim foi. Logo no mês seguinte, comecei a conversar com um amigo crente que conheci quando tinha 15 anos, nos acampamentos de verão da igreja, e com quem havia perdido o contacto. Daqueles tempos ídos, apenas guardávamos a recordação de que eu o achava bonito e ele a mim (o que sabe sempre bem saber). Agora ele já tinha 25 anos, já não tinha o cabelo comprido, e estudava no Seminário Baptista. Conversámos durante nove meses seguidos e construímos uma amizade muito sólida. Orámos também muito, queríamos ter a certeza de que era a vontade de Deus. Finalmente, começámos a namorar e casámos 1 ano e meio depois, num dia de muita chuva. Foi há 9 anos, comemoramos hoje. As flores do ramo da noiva morreram em pouco tempo. Mas o príncipe que me veio ter às mãos, é mais bonito a cada dia que passa. E tem o dom de tornar as vidas dos que o rodeiam também mais bonitas. Hoje é dia de agradecer a Deus pela vida conjunta que nasceu há 9 anos atrás, da qual nasceram depois mais 3 preciosas vidas. Parabéns para nós! *

28 de fevereiro de 2012

Pormenores

Pela manhã, à porta de casa, enquanto sentamos os nossos filhos no carro, e carregamos as mochilas e malas, para os levar à escola, passa por nós um vizinho, tranquilamente, com um biberão de leite na mão, para uma vitelinha que estava no campo à espera de ser alimentada. “Meninos, olhem o que o vizinho leva na mão, estão a ver? É para uma vaquinha bebé!” Os nossos filhos esticam-se para ver a cena. São pormenores como este que dão um encanto diferente aos nossos dias. São assim os Açores.

Declaração de amor

Enquanto lhe secava o cabelo, a minha filha diz-me assim: “Mamã, tu estás aqui dentro do meu coração!" (e coloca as duas mãozinhas em cima do peito enquanto diz isto).
E continua: “E sabes o que é que tu estás a fazer dentro do meu coração, sabes?” (Pausa) “Estás a fazer papinhas!!”
lol

20 de fevereiro de 2012

Super Mulheres

Quando estive em casa, após o nascimento do meu filho, aproveitava as alturas em que o alimentava para ver o Dr. House. Vi as séries praticamente todas. Num dos episódios, aconteceu o seguinte com a Dra. Lisa Cuddy:
O despertador tocou ainda de madrugada. Ela desligou-o, levantou-se cheia de energia, e foi fazer um pouco de ginástica matinal (corajosa). Depois tomou um duche, vestiu-se, tomou o pequeno almoço, tudo em contra-relógio. No meio de tudo isto, a filha (pequenina) chorava por ter acordado doente, com febre. Uma confusão. Entretanto, chegou a empregada doméstica que ficou com a menina. Ainda antes de sair de casa, apareceu-lhe o namorado, para uma visita rápida, e ela teve tempo e disposição para isso. Saiu de casa e foi trabalhar. Tudo cenas muito corridas, muito intensas. No trabalho era um dia decisivo. Ía ter uma reunião de negócios importantíssima de que dependia o futuro do hospital que dirige. Foi um episódio tão stressante, tão rápido, corre para aqui, corre para ali, chatices, a filha doente, a secretária sempre a correr atrás dela com recados, etc, que eu estive sempre à espera do momento em que lhe ía dar um colapso. Mas nunca aconteceu. Ela aguentou-se rija o episódio todo, conseguiu sair vitoriosa da reunião de negócios, foi para casa ainda relativamente cedo e passou o resto do dia com a filha e o namorado, super bem-humorada e tranquila, a trocar carinhos.
Ao terminar o episódio, ficamos com a sensação de que aquela mulher é sensacional, uma verdadeira heroína. Mas, se virmos bem, ela fez tudo aquilo porque tinha uma pessoa em casa a limpar, a tratar das roupas, a cozinhar e que ainda cuidava da sua filha. Ela tinha também uma secretária pessoal que lhe organizava a agenda e fazia as tarefas mais aprisionadoras e burocráticas. E, acima de tudo, ela era superelegante, gira, inteligente, com tempo para tudo e mais alguma coisa, porque era a protagonista de uma série de ficção de sucesso. Mas, note-se, apesar de tudo, ela tinha apenas um namorado, não um marido. E o namorado não era o pai da sua pequena filha. Na verdade, nem era o namorado que ela gostava de ter. Poucos episódios depois, esse namoro terminou e logo começou outro, muito tumultuoso, com o House, mas que também vai terminar depois. Mas até isso não deve ser por acaso. É a imagem de uma mulher livre, desprendida, que não se submete à rotina, nem a um homem só. Mas, no fundo, é uma mulher infeliz no amor. E a sua criança vai crescendo sem uma presença paterna. É esta imagem da mulher-heroína que não gosto, não concordo e acho um exagero. Concordo que as mulheres ainda estão a percorrer o caminho da igualdade de género em diversas áreas. Mas é preciso ter atenção aos exageros. Falo por mim - se faço muitas coisas na vida é porque formei equipa com um marido excecional e um pai dedicado. Não existem super-mulheres. Não existem super-homens. Existem boas equipas.

14 de fevereiro de 2012

Um segredo de ouro

Ao longo do dia de hoje, o pensamento tem-me fugido constantemente para o Hospital da Horta. É lá que está, desde manhã cedo, a L., uma irmã da nossa igreja. Vai dar à luz uma menina. Sei que ela está com muito medo do parto. No domingo orámos por ela no culto. Nestas ocasiões, lembro-me sempre de um conselho de ouro que uma mulher me deu, pouco antes de nascer o meu primeiro filho. Também eu tinha algum receio, ainda mais porque nestas coisas da maternidade contam-se sempre muitas histórias, cada mulher tem a sua própria teoria, para além de muitos mitos completamente absurdos. Lembro-me de me perguntarem: “Vai ter o bebé aqui? Não o vai ter no Continente?” Ficava perplexa… E depois diziam-me que na Ilha o parto era só com uma parteira, sem médico. E que se fosse uma cesariana que faziam uma costura do tamanho da barriga inteira. Medonho. Até que, um dia, uma mulher, que teve aqui o seu filho, deu-me o seguinte conselho: “Quando estiveres em trabalho de parto, OUVE tudo o que te disserem para fazer e depois FAZ!” Tão simples quanto isto. Segui este conselho das três vezes que tive bebés e, de facto, é um segredo de ouro. Naquelas situações, é tudo tão difícil que a tendência é querermos assumir o controlo da situação e não querermos saber de nada nem de ninguém que esteja à nossa volta. Mas o segredo é fazer exatamente o oposto: dar o controlo a quem é entendido e obedecer. Um conselho de ouro, não só para ter bebés, mas que pode ser assumido com uma regra de vida entre nós e Deus.
(Obrigada, Sara G.)



(Entretanto, pela madrugada do dia 16, nasceu a Isabela, com 3.145Kg. Mais uma açoriana linda para o rol de bebés da nossa igreja.)

9 de fevereiro de 2012

7 de fevereiro de 2012

Dar o Nó

Chegou hoje no correio uma carta muito especial: o convite de casamento do meu irmão e da minha futura cunhada. Lindíssimo. O meu menino vai casar. O meu maninho que eu ía buscar à escola de bicicleta, transportando-o sobre o quadro (que perigo), bem aconchegadinho a mim. Tão pequenino que ele era, com um corte de cabelo à "cogumelo", muito lindinho que era (e é). Vai casar o meu menino. Estou muito feliz e também muito grata a Deus pela noiva maravilhosa que lhe deu. Que Deus os abençoe muito. Estou emocionadíssima. Pronto.

Biologia explicada

-"Mamã, eu e os manos viemos da tua barriga, não foi?" - pergunta-me com ar de quem já sabe a resposta de antemão.


-"Sim, claro... mas porque perguntas isso?"


-"Sabes, se tu fosses uma cavala-marinha quem ía ter os bebés na barriga era o pai!"


-"Ai sim? (risos) Que giro, não sabia disso..."


-"É verdade." - e continua - "As cavalas-marinhas sabes o que fazem? Passam o dia a olhar para o ar!"

(lol)

6 de fevereiro de 2012

Invasores

Recordo-me muitas vezes desta história que, para mim, representa também uma lição de vida. Há muitos anos atrás, ainda eu não tinha nascido, a minha mãe recebeu do pai um terreno agrícola. Recordo-me de ser pequena e de acompanhar, com entusiasmo, a abertura de um poço naquele terreno, com o objetivo de obter água para a rega das árvores de fruto que ali iriam ser plantadas. Recordo-me também de acompanhar os meus pais a plantar pessegueiros e outras árvores. Foi um trabalho aprazível, mas muito árduo, ainda mais por ter sido feito por pessoas “da cidade”, sem muita experiência nestas tarefas do campo. Para nossa alegria, as árvores começaram a crescer e a dar pequenos frutos. Recordo-me de comer uns pêssegos pequeninos, muito mirrados, mas que achámos maravilhosos por serem fruto do nosso pomar. Com o passar do tempo, começamo-nos a aperceber que as nossas árvores não íam passar daquilo e que os pêssegos grandes e suculentos nunca chegariam. Apercebemo-nos também que a água do poço era pouca. Foi então que alguém nos chamou a atenção para o facto do terreno do vizinho, mesmo coladinho à nossa plantação, ser um enorme eucaliptal! Ingenuidade nossa… Só arrancando aqueles eucaliptos, ou, pelo menos, mantendo uma distância mínima de 30/40 metros entre os dois terrenos é que algum dia conseguiríamos ter um pomar e água no poço. Nunca me esqueci desta lição. E quando vejo crentes que param de crescer, que dão frutos muito mirradinhos ou que deixam o seu poço secar, é porque deve existir um eucaliptal por perto. Que Deus nos ajude a manter a devida distância de tudo o que mata o nosso crescimento.

2 de fevereiro de 2012

Sete anos

Faz hoje sete anos que viemos viver para o Faial. Sete anos... Tantas coisas aconteceram desde então... Tantas lutas, tantas vitórias, tantas conquistas. Tantas vidas alcançadas pela graça de Deus… Éramos uns meninos, com quase dois anos de casados, ambos na casa dos vintes. O Miguel já vinha connosco, sem que soubéssemos. Nunca pensámos que aqui ficaríamos tantos anos. Mas o Senhor tudo sabe. E hoje é dia de dar muitas graças a Deus, pois até aqui nos ajudou o Senhor. E sempre ajudará.

31 de janeiro de 2012

Casas dos Açores



Casa feitas de pedras vulcânicas e portas com uma janelinha quadrada. Gosto muito.

30 de janeiro de 2012

Festa no Céu

Ontem, durante a pregação, fiquei a tomar conta das crianças (a nossa igreja tem muitas crianças pequenas), no piso superior da igreja. A dada altura, já perto do final do culto, ouvi uma salva de palmas. Estremeci... Que se estaria a passar? Certamente não estariam a aplaudir o pastor... Quando desci com os meninos, um irmão que estava logo à entrada do salão de cultos, emocionado, contou-me que o José tinha recebido Jesus como seu Senhor e Salvador! Ainda ouvi a sua esposa a orar, visivelmente emocionada, pela concretização de um pedido que vinha fazendo a Deus há vários anos: a conversão do marido. O José, a seu lado, chorava. Há vários anos que assiste regularmente ao culto, mas nunca tinha tomado uma decisão. Louvado seja Deus! Mais um açoriano cujo nome foi inscrito no Livro da Vida! A Deus toda a Glória!

Sinceridade

Por estes dias, o meu filho trouxe umas palavras cruzadas como trabalho de casa. Cada palavra correspondia a uma imagem e uma das imagens era um retângulo preto com seis estrelinhas. Que palavra seria aquela? Estrelas? Estrelado? Seis? Nada encaixava, pois a palavra tinha de ter na sua composição “na-ne-ni-no-nu”. Vendo a tristeza do meu filho, que só lhe faltava aquela palavra para acabar o trabalho, fui à internet e pus-me a pesquisar palavras com “na-ne-ni-no-nu”… uma tarefa interminável…. Passado um bom bocado, já com os olhos a doer, descobri a palavra certa: NOITE! Foi uma festa, ficámos felicíssimos e o meu filho lá concluiu o trabalho. No dia seguinte (esta parte foi-me contada pelo meu filho), quando a professora perguntou se alguém tinha descoberto aquela palavra, o meu filho, todo contente, disse: “É noite!” A professora confirmou que era essa a palavra correta e o meu filho respondeu entusiasticamente: “Boa! A minha mãe acertou!” :)

24 de janeiro de 2012

Boas notícias

A comunidade baptista assinalou este fim-de-semana a consagração de um novo pastor, o Tiago Cavaco, um bom amigo nosso, e a passagem da Missão em São Domingos de Benfica a Igreja.
Já agora, permitam-me completar a notícia, aqui fazendo jus à “classe” a que pertenço :) dizendo que este fim-de-semana fica também marcado pelo surgimento de uma valiosa esposa de pastor, uma mulher de Deus que muito aprecio: a querida Ana Rute.
Estamos todos mais ricos.
(Que Deus muito abençoe a vossa família e Igreja)

23 de janeiro de 2012

Mãe

…e duas semanas depois, os valores das análises da minha mãe voltam a permitir-lhe retomar a quimioterapia. Foi hoje novamente internada no IPO. Agradeço a todos os que oram connosco por ela. Um dia de cada vez.

20 de janeiro de 2012

:)

Depois de 2 filhos que celebraram ambos o seu 1º aniversário absolutamente desdentados, o nosso mais novo quebrou a tradição e eis que, aos 9 meses de vida, revelou o seu 1º dente! Venham os bifes!

16 de janeiro de 2012

Filhos do coração (muito bonito)

- Mãe, se eu tivesse estado na tua barriga, gostava mais de mim?
- Não, meu filho, porque haveria de gostar? Tu estiveste dentro de mim, no meu pensamento e no meu coração.
- O meu desejo de te ter, de te pegar, de ver o teu rosto era tão grande como uma barriga de grávida.


- O Pai não engravida, no entanto, ama os filhos desde o primeiro momento, e para sempre.


(Tirado de: "Grávida no Coração", de Paula Pinto da Silva / Ilustrações de Gémeo Luís)

13 de janeiro de 2012

Tudo a Seu tempo

Por estes dias, estava a trabalhar e, de repente, apercebi-me desta feliz coincidência. Já nem me lembrava disto, mas, há sete anos atrás, quando cheguei à Ilha, fui dar o meu nome para efeitos de emprego. Recordo-me de estar sentada numa pequena sala, com um funcionário desse serviço, a dar-lhe os meus dados e currículo. A sua resposta foi a seguinte: “Ficamos aqui com os seus dados, mas digo-lhe de antemão que dificilmente irá ser chamada, pois tem habilitações a mais.” Uma resposta nada animadora. Hoje, passados todos estes anos, a sala onde se passou aquele episódio (e que entretanto já não é daquele serviço) é precisamente a sala onde eu trabalho. E tenho as habilitações exatas e ajustadas para o trabalho que desenvolvo. Como a vida dá voltas…

Pormenores




Meia-cortina em janelas de guilhotina. Gosto muito. (casas típicas dos Açores)

12 de janeiro de 2012

Vacas magras

A primeira vez que ouvi a história de José foi através da Guida, uma empregada da sapataria da minha mãe. A Guida pertencia à Assembleia de Deus. Um dia, no armazém da loja, enquanto experimentava sapatos de salto alto (uma das minhas brincadeiras predilectas de criança), a Guida contou-me a história de José. “Sete vacas gordas e sete vacas magras”, nunca mais me esqueci. Em especial, ficou-me marcado que foi durante o período das “vacas magras” que aconteceu a parte mais bonita da história – o reencontro de José com os irmãos e a reconciliação.
Os dias que correm são de “vacas magras”. Os efeitos da crise que o país atravessa são sentidos de uma forma muito especial nos meios pequenos, como o Faial. Algumas famílias da igreja ponderam sair da ilha, em busca de melhores condições de vida. O trabalho escasseia, o número de desempregados aumenta, os preços são elevados, o ambiente de depressão emocional vai-se alastrando. O número de suicídios e de tentativas de suicídio que têm ocorrido nesta ilha tão pequena é inquietante. Mas é curioso, que é quando as coisas não nos correm bem, que percebemos que somos apenas “pó” e que nada está nas nossas mãos. E é nestes momentos de quebrantamento que Deus se revela. Não há volta a dar, fomos feitos para ter um relacionamento com Deus e enquanto não o tivermos seremos incompletos, insatisfeitos.
No domingo passado, a igreja estava completamente cheia. Praticamente todos os membros e congregados estavam presentes, para além de alguns visitantes. Que 2012 possa ser o ano da reconciliação de muitas vidas com Deus. Um ano rico espiritualmente, em tempo de vacas magras.