11 de março de 2015

2 anos de Queluz

No mês passado completámos dois anos de Queluz. Não posso deixar passar esta data sem aqui escrever umas linhas, pois Queluz ocupa hoje um lugar demasiado importante nos nossos corações. Recordavamos há dias, o momento em que o avião que nos trouxe dos Açores levantava voo do Faial, sob muita emoção nossa. Recordávamos as palavras que trocámos naquele momento, de que dificilmente voltaríamos a pertencer a uma igreja que nos amasse tanto e a quem nós amassemos tanto. Mas estavamos certos de que era essa a vontade de Deus. E era mesmo. Em apenas dois de Queluz, temos a incrível sensação de que sempre pertencemos aqui. Sentimo-nos completamente em casa. Somos felizes aqui. Pois o amor de Deus é inesgotável. Temos recebido tanto amor e tanto apoio por parte destes irmãos que os nossos corações estão já muito ligados. E temos recebido também um profundo sentimento de compaixão e amor por estas vidas, por esta igreja e por esta cidade. Estão a acontecer coisas tão bonitas na igreja de Queluz! E creio no meu coração que o melhor está por vir.

Mulheres

Aqui há tempos, bateram no nosso carro, numa rotunda. O outro carro estava completamente fora de mão e a culpa foi 100% sua, sem qualquer sombra de dúvida. O condutor era um senhor na casa dos seus cinquenta e tal anos, com um carro pequeno. Estava eu e o senhor de pé, lado-a-lado, junto aos carros, à espera da polícia, quando um condutor que passava por ali, abrandou junto de nós e abriu o vidro. Olhou-me nos olhos com um ar de raiva e desprezo, gritando furioso: “- Já viste bem a porcaria que fizeste?" (não foi bem porcaria que ele disse). E, enquanto dizia isto, a mulher dele, sentada ao seu lado, nervosa e envergonhada, dizia-lhe assim: “Segue… segue e cala-te!” E sem me dar espaço para dizer nada, meteu prego a fundo e lá partiu, sempre a gesticular, convencido de que fui eu – a mulher - a autora daquela triste manobra.
Por estes dias assinalou-se o Dia Internacional da Mulher. E assinalou-se muito bem.

19 de fevereiro de 2015

40

Nasceu silencioso, num hospital de freiras. Estas, vendo que o bebé não reagia, deram-lhe umas valentes palmadas para o pôr a chorar. Desde aí, conta ele com muita graça, tornou-se protestante. Foi há 40 anos que nasceu o meu amor. Nos últimos 12 anos, tenho tido a alegria de poder caminhar ao seu lado. Não esperava tanto da parte de Deus, quando lhe pedia um marido. Mas a medida da bênção de Deus é assim mesmo: extravagante. Ele é uma inspiração para mim. Muitas vezes, dou por mim a olhar para ele espantada (sim, ele continua a surpreender-me) com as coisas que diz, as coisas que faz, e reconheço claramente a obra de Deus na sua vida. Ele continua a crescer. E há aspetos que me comovem profundamente, como a sua humildade, simplicidade e honestidade. Também a sua serenidade perante as ondulações da vida. É capaz de contar uma história sem acrescentar um único ponto. Se falhar no relato, é por defeito, não por excesso. Isto, para mim, é absolutamente fascinante (pois sou a mulher do suspense e dos efeitos especiais). Esta sua faceta tem um nome: integridade. Por vezes, como humanos que somos, damos por nós a pensar que somos melhores do que alguém. Nunca senti isso em relação a ele. É impossível. É dono de um coração imenso e de uma profunda sabedoria. Um pai dedicado e amoroso. Um marido muito amigo. Se há pessoa neste mundo que se alegre com o dia 19 de fevereiro é esta que escreve estas linhas. Cada ano que Deus lhe concede é ouro para mim. Parabéns, querido! Que Deus te conceda muitos mais anos desta vida tão bonita que tens dedicado à glória do Pai. E o melhor está por vir.

27 de janeiro de 2015

Mudanças

E por estes dias mudámos mais uma vez de casa. Foi a nona mudança, nos últimos 12 anos. Estamos apenas a algumas ruas de distância da antiga casa, no entanto, a nova casa traz consigo algo muito importante: mais um quarto (para a nossa menina). Uma necessidade que vínhamos sentido desde há algum tempo e que agora o nosso Deus supriu. Estamos felizes :)

21 de janeiro de 2015

O verbo adrair

No carro, eu para o meu marido: "Sabes, quem aderir este mês à Deco ganha de prémio um tablet!"
Miguel, que ouvia a conversa no banco de trás, dá um salto e diz efusivamente: "Pai, por favor, adrai!" E repetia, gesticulando muito - "Adrai, pai, adrai! Por favor, adrai!" 

20 de janeiro de 2015

Educar no temor do Senhor

(Foto: a minha irmã e eu, em frente à sapataria dos nossos pais)
 
Antes de nos nascerem filhos, temos muitas ideias pré-definidas acerca dos pais que queremos ser e da forma como os iremos educar. Depois, na prática, as coisas não são assim tão lineares. Quando os nossos filhos nascem, temos uma vida já definida e é nesse contexto que eles vão crescer. É dentro dessa realidade que vamos procurar dar o nosso melhor, sob a orientação de Deus. É assim que procuramos fazer por aqui.
No meu caso, por exemplo, cresci no meio dos sapatos. Os meus pais eram comerciantes de calçado. Isto já vinha detrás, os meus avós também tinham tido uma sapataria (aliás, o meu avó era mesmo sapateiro). Foi na sapataria que passei boa parte da minha infância. Era a minha 2ª casa. Era ali que brincava. Era ali que fazia os trabalhos de casa. Era ali que lanchava. E isto não é tão divertido como possa parecer. Estar na sapataria era sinónimo de ter pais tão ocupados que não podiam estar connosco em casa às horas em que as outras crianças já estavam em casa. Os comerciantes começam o dia cedo e terminam-no mais tarde do que quase toda gente. Os sábados também são dias de trabalho e os feriados, por vezes, também o são. À hora em que as famílias já estavam em casa a jantar, muitas vezes, os meus pais ainda estavam a fechar a porta da loja e ainda íam fazer compras para o jantar. Recordo-me de ficar a fazer serão na loja, enquanto os meus pais atendiam viajantes, que vinham do norte do país, para mostrar as novas coleções. Dormi muitas sestas no banco onde os clientes experimentavam sapatos. Durante anos seguidos, a minha família não conseguiu gozar férias. Era assim mesmo, uma vida de muito trabalho. E nós, filhos, compreendíamos que era aquele o trabalho dos nossos pais e respeitávamos os seus compromissos, acompanhando-os sempre.
É interessante, mas pus-me a pensar sobre as memórias que guardo desse tempo e concluo que aquilo que mais me marcou foi isto que vou passar a enunciar:
- A minha mãe escolhia os sapatos que vendia na sua loja experimentando-os primeiro. Só comprava sapatos que fossem confortáveis e que dessem ‘bom andar’.
- Os meus pais eram incapazes de dizer a um cliente que uns sapatos eram de pele, se fossem de imitação de pele.
- Os meus pais eram incapazes de dizer a um cliente que os sapatos lhe ficavam bem, quando, na verdade, ficavam muito mal, ou quando abriam ‘bocas’ dos lados.
- Recordo o seu zelo em querer cumprir todos os seus compromissos financeiros para com os fornecedores, os bancos e as empregadas. Recordo lágrimas, recordo sorrisos, recordo orações ao Senhor pedindo auxílio e sabedoria.
- Recordo a ‘ginástica’ que faziam para acompanhar os filhos em todas as suas atividades, no percurso escolar, muitas vezes esgotados de cansaço, mas sempre impulsionando-nos para lugares altos e honrados.
-Não fizeram tudo certo, mas sempre nos encaminharam para a fé em Cristo, que reconheciam como o fundamento sobre o qual deveríamos construir as nossas vidas. Este era um ponto muito importante.

Os meus filhos também nasceram num contexto muito específico: são filhos de um casal envolvido no ministério pastoral. É uma bênção tremenda, é certo. Mas também há coisas menos agradáveis que eles têm de passar. Como as mudanças de casa e de terra, por exemplo. Procuramos, no entanto, mostrar-lhes que essas “coisas menos agradáveis” têm um fundamento muito especial: o amor profundo que os pais têm por Deus e pela Sua igreja. Recordo, a este propósito, uma pergunta feita recentemente pela minha filha: “Porque é que somos sempre os últimos a sair da igreja?” (e sair ‘mais tarde’ na nossa igreja significa sair mesmo muito tarde). Nestes momentos, precisamos da sabedoria do Senhor para responder aos nossos filhos. Não podemos deixar de conversar abertamente com as crianças e explicar-lhes o fundamento das coisas. Naquele momento, percebi que não bastava responder que “tem de ser” ou que “está quase, já vamos embora”. Respondi-lhe assim: “Sabes, o pai ama tanto estas pessoas da igreja que ele não pode deixá-las ir embora sem se despedir delas e sem conversar um bocadinho. Este amor que o pai sente é muito especial, vem do nosso Deus.” Imediatamente, notei um brilhozinho no olhar dela. Um brilho de compreensão e assentimento. Como mãe, oro para que os nossos princípios e a fé em Cristo possam ganhar raízes profundas nos corações dos nossos filhos e que, a seu tempo, eles possam dar frutos que glorifiquem a Deus. Pela graça de Deus, já vamos vendo alguns desses frutos. E desejamos ver muitos mais.

13 de novembro de 2014

Ainda sobre o Pastor Oliveira

Andei o dia todo a ganhar coragem para lhes contar o que tinha acontecido. Não sabia mesmo como lhes dizer. Os meus filhos sabem perfeitamente o que significa “ir para o Céu”, pois ainda há pouco mais de 2 anos passaram pela despedida da avó Celeste. Eles conhecem bem o sabor amargo de deixar de ter alguém que amamos no nosso dia-a-dia. E mais, eu sabia o quanto eles gostavam do Pastor Oliveira.
Já ao final do dia, sentados no sofá, disse-lhes que tinha uma notícia para lhes dar. A minha filha, imediatamente, abriu muito os olhos e esboçou um sorriso radiante, pensando que ía ouvir da minha boca aquilo que me pede quase diariamente. Mas, percebendo a sua expressão, logo lhe respondi: “Não, Mariana, a mamã não vai ter um bebé.” Disse-lhes então que a notícia era um pouco triste, apesar de também ser feliz. “O Pastor Oliveira foi para o Céu… foi viver com Jesus.” Com o semblante triste, até aceitaram bem a notícia. Mas a reação do meu filho mais velho, partiu-me o coração. Ele disse assim: “Foi para o Céu?... Mas, ele era meu amigo…”. O nosso filho “perdeu” todos os seus amigos quando nos mudámos dos Açores para cá. Neste último ano e meio, tem procurado, a pouco e pouco, reconstruir o seu mundo de amizades. Mas não tem sido fácil, pois as amizades que ele tinha vinham desde o berço, eram laços fortes. O pastor Oliveira, curiosamente, era especialmente carinhoso para com o nosso filho mais velho. Dava-lhe chocolates e, volta e meia, ele aparecia com notas. “- Mamã, já podemos ir almoçar ao Chinês!” – disse-me um dia, muito feliz, enquanto exibia uma nota de cinco euros. “- Quem te deu essa nota?” E ele respondia: “- Foi o pastor velhinho”. Expliquei-lhe que o pastor estava muito doente e que agora no Céu já não estava mais doente, mas que estava feliz com o nosso Deus. Ficou mais consolado. Mas, logo suspirou: “E os chocolates? Quem é que nos vai dar chocolates? …” Acabámos todos por sorrir com a história dos chocolates.
Quando os deitei, pedi à minha filha que orasse, pois tinha um nó enorme na garganta. E as crianças são incríveis… Eu, que sou adulta e que sei tantas coisas, é que devia ter feito a oração que ela fez e com a atitude com que ela a fez. De olhos fechados, dirigidos pela Mariana, ouço-a dizer na sua doçura infinita: “Senhor, estamos tão felizes com a notícia de que o Pastor Oliveira já está contigo no Céu! Esperamos que ele possa sentir-se muito bem aí! Senhor, faz com que ele que seja muito feliz no Céu! E faz também com que a irmã Lídia não fique triste. Que ela possa continuar sempre a orar pelas pessoas e a ser amiga das pessoas.” Sem palavras. Jesus tinha muita razão quando disse que temos de ser como as crianças. Que o Senhor nos console.

11 de novembro de 2014

Pastor Oliveira

Nunca esquecerei aquele dia, que acabou por ser o último dia em que estive com o Pastor João Rosa de Oliveira. Pela manhã, entrei no seu quarto, acompanhando o meu marido, e vimo-lo deitado na cama, muito enfraquecido. Era notório que estava bastante mais doente do que há um punhado de dias atrás. Porém, contente de nos ver, e ignorando completamente o nosso pedido, bem como o da esposa, para que permanecesse deitado, fez um esforço e sentou-se na beira da cama, ainda com um rasgo de energia inexplicável. "-Veio ver o pastor velho?" - disse-me em tom de brincadeira (pois costumava dizer aos nossos filhos que o meu marido era o pastor novo e que ele era o pastor velho). Dali a instantes, deu-me um cd para a mão e pediu-me que o pusesse a tocar no leitor que tinha ao lado da cama. Fiz como me pediu. Ficámos por momentos em silêncio a aguardar que música começasse a tocar. Ouvem-se os primeiros acordes, o som era suave… Olho para o Pastor Oliveira e vejo-o de olhos fechados, com um sorriso muito rasgado. Que expressão inesquecível! Era assim que ele fazia quando sentia as coisas no coração. Até falava e pregava muitas vezes com esta expressão. E a música iniciava assim: 

Há uma terra além do Rio
Que chamamos doce eterna
E somente alcançaremos pela Fé
Um a um de entrar havemos
Nesse lar de bens supremos
Quando o Salvador chamar a mim e a ti. 

Procurámos controlar a emoção (algo tão difícil de fazer quando amamos uma pessoa), e, ainda meio atordoados, ouvimo-lo dizer-nos que sentia muita alegria por saber que estava prestes a ir para o Céu. “Quero muita música na minha despedida! Muita alegria!” Dali a pouco, pediu uma partitura à sua esposa, D. Lídia. Diz-nos que foi o seu saudoso cunhado, Pastor Daniel Machado, quem traduziu aquele hino.
E, já cansadíssimo, ignorando mais uma vez os nossos apelos para que não se cansasse, começa a cantar este hino: “Aleluia! Aleluia! Corações ao céu bradai/ Entoando alegre hino de louvor ao Deus que é pai / E ao que sobre a cruz seu sangue/ Pra nos salvar derramou/ Jesus Cristo o Rei da glória que a morte aniquilou!” Inesquecível este momento! Já no final da visita, orámos todos juntos. Ao sair do quarto, ainda voltei atrás para o tapar, pois vi que se tinha voltado a deitar e que não tinha puxado as cobertas. “- Descanse bem, Pastor”- foram as minhas últimas palavras. “Obrigadinha!” – respondeu-me.
Nesse dia, nem me consegui concentrar bem no trabalho, por causa de tudo o que vi e ouvi naquela visita. O Pastor Oliveira era uma pessoa que nos tocava o coração. Não apenas por causa das suas palavras, mas muito pelas suas expressões tão genuínas. Ele estava preparado. Mais do que isso, ele estava desejoso pelo seu encontro com Deus.
Hoje, estou profundamente emocionada com a sua partida para glória. As palavras parecem-me todas muito pequenas para transpor a amizade, a gratidão e a saudade que este querido pastor vai deixar nos nossos corações. Já está no gozo do Senhor!

29 de outubro de 2014

O pecado menos confessado

Por estes dias, li um livro que me incomodou profundamente. Foi-me oferecido por uma amiga, no meu aniversário. "Este livro já é bem antigo, não diz nada que já não saibas, é apenas uma lembrança." - disse-me ela. Qual quê! Tenho andado aqui às voltas para tentar digerir tudo o que li. Creio até que vou ter de o ler novamente. O livro aborda o pecado mais comum entre os cristãos, que curiosamente é também o pecado menos confessado. Esse pecado chama-se... o pecado da falta de oração. O autor faz um apelo direto para que confessemos este pecado e nos arrependamos dele. Incita-nos também a pedir a ajuda do Espírito Santo para nos fortalecer na descoberta de uma vida de oração rigorosa, comprometida, mas muito feliz. Pois a oração é o segredo de uma vida espiritual poderosa.
"Muito se diz e muitas queixas se fazem sobre a fraqueza da Igreja em cumprir a sua chamada, em exercer uma influência sobre os membros, em libertá-los do poder do mundo e a levá-los a uma vida de santa consagração a Deus. Muito também se diz sobre a sua indiferença face aos milhões de perdidos que Cristo lhe confiou para que ela torne conhecidos deles o Seu amor e salvação. Qual a razão para muitos milhares de obreiros cristãos no mundo não terem uma maior infuência? Nada, a não ser isto - a falta de oração no seu serviço." (A Vida de Oração - Andrew Murray)

27 de outubro de 2014

À minha maneira

Houve um dia um homem que decidiu dar uma oferta a Deus. Ele sabia que para Deus há que dar sempre o melhor. Aliás, o melhor dos melhores. Ele sabia que Deus deseja as primícias, não os restos (porque Deus é digno). Ele sabia tudo isso. No entanto, decidiu dar apenas uma boa oferta, em vez de uma oferta excelente. Deu a oferta como quis, não como Deus pede. Quem viu aquele homem depositar a sua oferta no altar, certamente pensou: “Bem, este homem ama profundamente a Deus! Que oferta maravilhosa está ele a trazer ao Senhor… Que coração generoso!” Porém, a Bíblia diz-nos que Deus não aceitou aquela oferta. (Gén.4:3-5)
 
Houve um dia alguém que recebeu um convite para ir ao casamento do filho do Rei. Que alegria! Que honra! Aquela pessoa sabia que todos os convidados teriam de usar vestes nupciais, no entanto, entendeu que iria vestido a seu gosto. E não é que teve esse atrevimento? Enquanto se dirigia para o casamento, pensava para consigo mesmo: “- O Rei há-de compreender a razão pela qual não quis vestir aquelas vestes. Ele é um Rei compreensivo e amável. Aquelas vestes não fazem mesmo o meu estilo. Afinal de contas, eu tenho o direito de vestir-me como bem entendo.” Porém, diz-nos a Bíblia que o Rei não deixou aquela pessoa participar da boda. (Mateus 22:1-14) 

17 de outubro de 2014

Alegria

Deus fala-nos de muitas maneiras. Até através de estranhos. Todos os dias, quando vou levar os meus filhos mais velhos à escola, cruzo-me com uma mulher que também vai levar o seu filho à escola. Recordo-me do 1º dia em que reparei nela e da forma como Deus falou ao meu coração através dessa situação. Eu que vou sempre muito apressada, com o tempo contado ao segundo, a procurar ajudar os meus filhos a carregar as mochilas, a lancheira, os casacos, procurando gerir alguma birra de última hora e com o pensamento no filho mais novo que, dali a alguns minutos, temos de deixar noutra escola, que ainda fica distante daquela… e o combóio que tenho de apanhar de seguida e o tempo sempre a correr… pois bem, naquele dia, o meu olhar ficou preso àquela mãe. Ela vai muito tranquila com o seu filho para a escola, como que aproveitando cada momento. Tem um sorriso rasgado, próprio de alguém a  quem tudo corre bem na vida. Partilha essa boa disposição com o filho e com as pessoas conhecidas com quem se cruza no caminho. Despede-se do menino com um longo abraço e beijos. O menino vai todo contente para a aula. Volta para casa a pé, serena. Todos os dias reparo nela. Esta mãe, que deve ser mais ou menos da minha idade, traz um lenço a cobrir a cabeça, pois não tem cabelo. O seu ar pálido confirma aquilo que todos percebem que traz dentro de si. O sorriso daquela mãe, apesar das circunstâncias, aquece-me o coração. Também eu tenho de aprender a descansar mais e mais no Senhor e sorrir de gratidão, pelo bom, pelo menos bom, por todas as coisas. Pois a alegria do Senhor é a nossa força (Num.8 :10)

16 de outubro de 2014

Coração bom

Este ano, no aniversário do nosso filho, proporcionámos-lhe uma ída à Kidzania. Era um sonho que ele tinha. As primas íam com ele, mas ele pediu-nos que também fosse um menino. Dissemos-lhe então para escolher dois meninos de entre os seus amigos. Pensou e logo decidiu quem eram os dois meninos que ía convidar. O que nos surpreendeu foi o motivo que pesou na sua escolha: “Eu vou escolher o … e o … porque eles secalhar nunca terão oportunidade de ir à Kidzania”. Sem palavras. Que Deus te conserve sempre assim, filho. Um coração bom.

Orações

A Mariana a orar, com muita emoção, e eu a morder os lábios para não me desmanchar a rir. São assim crianças. Maravilhosas :) 
“- Ó Senhor, ajuda os pobrezinhos! Eles coitadinhos só têm umas migalhinhas para comer… Ajuda-os a encontrar uma, ou duas, ou três moedinhas para comprar pão. Que eles possam pôr o seu copinho à janela e que Tu faças chover para eles terem água para beber. E que eles possam ter Jesus no seu coração. E depois dá-lhes também um iogurte…”

22 de setembro de 2014

9

Fez ontem nove anos que nasceu o nosso filho Miguel. O nosso “primogénito” que foi “unigénito” durante dois anos e meio, como ele disse há dias durante uma lição da escola bíblica dominical, demonstrando que sabe aplicar o vocabulário bíblico (lol). É um menino muito amado. Temos aprendido muitas coisas com ele e sabemos que vamos continuar a aprender. Os nossos filhos são dádivas de Deus e trazem consigo certas particularidades, com um determinado propósito. É isso que temos vindo a descobrir. O Miguel, desde pequenino, foi sempre um menino especial. Recordo-me de um episódio cómico, mas também muito constrangedor, quando ele tinha apenas 4 anos de idade - uma tia do meu marido, decidiu oferecer, no Natal, um golfinho de peluche (pensava ela), à nossa filha, que era ainda bebé; ora, estava ela a oferecer o “golfinho” à bebé, dizendo: “Olha aqui, Mariana, um golfinho tão fofinho…”, quando o Miguel decide intervir: “Bem, na verdade, isso não é um golfinho… (aqui, parámos todos a olhar para ele)… na verdade, isso é uma orca (e era mesmo) – e agora o pior – também conhecida por baleia assassina!” (lol) Nos últimos anos, percebemos claramente que a matemática e as ciências da natureza são a sua “praia”. É muito curioso, ávido por conhecimento: “O que são hormonas? O que é o ph da água? Explica-me depressa, mamã!” Confesso que, por vezes, fico aflita com as perguntas dele. Tem um sentido de humor apurado: é muito engraçado a dizer as coisas (o que nos rimos com ele!) e sabe rir (a gosto) das coisas realmente engraçadas. Por vezes, ri tanto que quase lhe falta o ar. É também muito sensível aos outros, preocupado e ajudador.  A sua inteligência deixa-nos muitas vezes intrigados… “Mas quem é que lhe ensinou isto?”. Por exemplo, aprendeu a jogar xadrez sozinho, através da internet. Ser diferente dos demais é muito curioso, mas há sempre coisas menos boas e difíceis que daí advêm e com as quais há que aprender a lidar. Há nove anos que damos diariamente graças a Deus por este menino. E pedimos a Deus muita sabedoria para o educar e orientar em Cristo, para que ele possa viver a sua vida inteira no temor do Senhor. Que assim seja.

16 de setembro de 2014

Pastor Daniel Machado


Hoje despedimo-nos (por ora) do Pastor Daniel Machado. “O Daniel foi morar com Jesus no Céu”, como escreveu o Pr. Diné Lóta . Era um pastor muito querido, muito íntegro. Tive oportunidade de o conhecer melhor quando estudei em Coimbra, pois era pastor da Igreja Baptista daquela cidade. Era sempre uma simpatia. Tinha também um bom sentido de humor. Uma das últimas vezes que estive com o Pastor Daniel Machado foi no casamento do meu irmão, em 2012. Guardo duas recordações especiais desse dia: uma delas foi a forma amorosa como brincou (literalmente) com as crianças (na foto, estava a apresentar-se à minha filha, como um verdadeiro cavalheiro, ao mesmo tempo que a minha sobrinha o puxava, com afinco, para a brincadeira; a outra recordação que guardo, foi a forma ousada (e ao mesmo tempo muito natural) como falou de Jesus a uns familiares nossos (que não são crentes), que ficaram na sua mesa (eu pude ouvir partes da conversa, a partir da minha mesa). Era assim o pastor Daniel, muito especial. Que o Senhor possa dar consolo à sua querida família, certos da esperança de um reencontro no Céu.

11 de setembro de 2014

O rei vai nú

Miguel, do meio das suas divagações, sai-se com esta: "Há uma coisa que não consigo entender... (pausa) Como é que o Presidente de Portugal, que é uma pessoa tão sábia, ainda não mandou proibir as praias de nudismo?" (lol)
Como disse o pai do menino que gritou "o rei vai nú!", no conto de Hans Christian Andersen, "Deus fala através dos inocentes". Mesmo.

10 de setembro de 2014

Mariana

As crianças são incríveis! Há um ano que faço este caminho todos os dias (o caminho para o meu emprego) e foi preciso a minha filha vir um dia comigo para passar a dar atenção a uma série de pormenores. Por exemplo, há imensas pombas no centro de Lisboa. Passeiam mesmo ao nosso lado, aqui e ali. E agora o mais interessante: "Mamã, já reparaste que estas pombas de Lisboa não se assustam?" E é verdade. De tão habituadas que estão ao movimento louco de pessoas e carros, aquelas pombas parecem ter perdido aquele instinto natural de esvoaçarem para longe, perante o mínimo movimento ameaçador.  A dada altura, a minha filha lançou-se a correr em direção a uma pomba que estava no passeio, mas escorregou e caiu no chão, permanecendo a pomba impávida e serena. Impressionante. Aquelas pombas já não se apercebem do perigo, de tão habituadas que estão a conviver com ele.
Também passámos por diversos pedintes. Um deles tinha um pequeno cartaz ao peito que dizia "Sou cego, ajude-me". A minha filha perguntou-me o que tinha aquele senhor. Expliquei-lhe que era cego e que estava a pedir esmola. "- Como sabes que é cego?" - perguntou-me. "- Li no cartaz que tinha ao peito" - respondi-lhe. Ficou pensativa por momentos e logo perguntou: "- Mas como é que ele conseguiu escrever o cartaz?" As crianças são incríveis!
Já de regresso a casa, diz-me ter gostado muito de ter estado no meu trabalho e que foi um dia muito feliz. Digo-lhe que, um dia, quando crescer, também poderá ser jurista e trabalhar num ecritório bonito como o da mamã. Resposta: "- Obrigada, mamã. Mas quando eu crescer gostava era de ter um trabalho em que todas as pessoas que eu encontrasse, ensinava-lhes sobre Jesus. Era isso que eu mais gostava de fazer." Engulo em seco, ao mesmo tempo que sinto os meus olhos humedecerem e guardo mais esta no meu coração de mãe. As crianças são incríveis!
 

5 de setembro de 2014

Um lugar especial


As minhas memórias daquele lugar remontam ao tempo em que ele era pouco mais do que um pedaço de pinhal vedado. Quando eu era pequena, parecia-me um terreno imenso. O que eu ali corri, o que eu ali brinquei... E o tanto que me arranhei e esfolei! Desfilei para os melhores criadores de moda (na minha imaginação) ao longo do muro que a minha mãe ali mandou construir. Eram tardes inteiras a passar modelos. Eu era uma manequim competente, aos 7 anos de idade. O muro também servia para fazer números de circo, mais propriamente de equilibrismo. Também ali praticava ginástica na trave, a nível olímpico, claro. Era muito aplaudida (também na minha imaginação). Fui diversas vezes medalhada. No cimo dos pilares do portão de entrada, sentava-me a cantar. Tenho uma foto que me tiraram naquele lugar, num final de tarde. Nessa foto tenho as pantufas da minha avó calçadas (não vale a pena aqui recordar o ralhete que levei quando ela se apercebeu que eu lhe tinha roubado as pantufas). Gostava de saltar com a minha 'Bota Boltilde' debaixo do alpendre da casinha de campo que os meus pais ali ergueram. Treinava muito, até lhes fiz um buraco nas solas. Brincava com os meus irmãos, mas também brincava muito sozinha. E não me chateava nada. A minha imaginação fervilhava com ideias novas. Tenho muito carinho por aquele lugar. Recordo-me que a minha mãe comprou talheres de cabo vermelho para aquela casa. Isto numa altura em que toda a gente apenas tinha talheres de ferro. Um dia, na minha pureza de criança, perguntei-lhe assim: "Quando morreres posso ficar com estes talheres?", ao que me respondeu "Mas, tu queres que a mamã morra?". Lembro-me que rimos as duas, pois, com a sua resposta, percebi a indelicadeza da minha pergunta. Entretanto, muitos anos se passaram. Este ano, voltei àquele lugar, que agora é também meu, por desejo da minha mãe. Ficar-lhe-ei sempre grata por isso. Ali passámos as nossas férias, rodeados de ar puro e silêncio. Agora são os nossos filhos que vivem as suas aventuras ao ar livre. Para nós, que temos uma vida tão preenchida, aquele lugar é mesmo uma bênção de Deus, um refúgio. Voltámos de férias renovados, prontos para os desafios que se nos colocam. E muito gratos a Deus por este lugar tão especial.

16 de junho de 2014

Reencontros

Conheci-a com sete anos de idade, era uma açoriana pequenina. Durante os cultos, vinha muitas vezes sentar-se ao meu lado e dava-me a mão. E eu já sabia para o que era. Enquanto o meu marido pregava, eu fazia-lhe festinhas na mão, muito devagarzinho, dedo por dedo. Depois, quando terminava, ela trocava de mão, muito depressa, para continuar a levar festinhas. Esta menina passou por momentos muito difíceis na sua família e eu percebia a sua carência. Por vezes, ía encostando a cabecinha ao meu ombro e quase adormecia (se é que não passava mesmo pelas brasas) encostadinha a mim. Ela faz este ano dezassete anos. Está da minha altura, se é que não me passou já. O meu filho apelidou-a de “mini-Adriana”, pois, de costas, confunde-nos. Temos o mesmo corte de cabelo. Ultimamente, já não vinha tanto para junto de mim, pois já é uma adolescente crescida. Mas, quando estive agora no Faial, no culto de domingo, veio sentar-se ao meu lado. Pegou na minha mão, olhou para ela por momentos e disse-me: “As tuas mãos continuam iguais”. Sorri para ela. Depois, com um jeito meio envergonhado, colocou a sua mão sobre a minha, como fazia quando era pequenina. Percebendo a sua saudade, agi com naturalidade, como se ela fosse a menina pequena de outrora e comecei a dar-lhe festinhas. E assim foi durante toda a pregação. Missões é também isto. Amar as pessoas. Vai muito mais além do ensino, do discipulado e do aconselhamento. É criar laços com as pessoas. É acrescentar a nossa família. Que Deus guarde esta jovem sempre no Seu caminho e que ela possa ser sempre uma mulher virtuosa, cheia do temor do Senhor.

13 de junho de 2014

Regresso aos Açores

Regressar aos Açores foi mesmo um presente divino. Um ano e meio depois de termos vindo para o continente, pude  voltar ao Faial, com os meus dois filhos mais velhos, a convite da União Feminina da Igreja Baptista da Horta. Pudemos rever aquele lugar paradisíaco e muitas caras que amamos (de dentro e de fora da igreja). Os meus filhos consolaram-se com os seus amiguinhos açorianos, com quem puderam brincar e fazer muitas pulseirinhas de elásticos (a 'febre' também já lá chegou). Foi muito bom reencontrar a igreja tão bem, tão saudável e feliz. Tive o privilégio de entregar os estudos bíblicos do retiro anual de senhoras (com muito temor e tremor). Romanos 12:1 e 2. "Transformação total". Foram 3 dias maravilhosos, de muita união, partilha e coração aberto para aprender do Senhor. Um tempo marcante para todas nós. Que o que o nosso Deus ali começou possa permanecer e dar muito fruto, para glória  de Deus!