11 de setembro de 2013

Memórias

Ninguém contava histórias como ela. Era um dom que tinha. Quando começava a contar uma história, conseguia captar todas as atenções. Ficava um silêncio absoluto. Ninguém pestanejava. As suas palavras eram muito exageradas e dramáticas em relação à história tal como ela se tinha passado. Mas é assim que as histórias ficam com mais graça. Os diálogos eram contados em discurso direto, com voz de homem ou de mulher, conforme o caso (e isto era de rir a bom rir), com sotaques, gestos e todos os pormenores. E tudo isto com muitas pausas, muito suspense. Uma das histórias que cresci a ouvir foi, por exemplo, a do meu nascimento. Todos esperavam um "Bernardo" (eu ainda sou do tempo em que não se faziam ecografias), mas ela não se importava que fosse outra menina. Nasci como um rapaz, pois os rapazes nascem com o rosto virado para baixo e as meninas com o rosto virado para cima (não sei se a ordem era exatamente esta, mas para ela esta era uma verdade científica), e assim enganei toda a gente até à última. Eu era feia de meter dó. Não tinha testa, o meu cabelo começava logo a seguir aos olhos. De tão feia que era, a minha mãe ficou toda a noite acordada a olhar para mim, a tentar perceber se eu era mesmo normal. Mas pôs-me sempre uma fita no cabelo e, aos poucos, o cabelo começou a recuar e lá ganhei dois dedos de testa. E por causa disto, nunca deixou fazerem-me uma franja, não fosse o cabelo tornar a avançar. Mas a parte da história que eu mais gostava era quando ela dizia que fui um presente que Deus lhe deu no dia dos seus 26 anos. Nasci no aniversário dela, dia 12 de setembro. Ela nasceu às 10h da manhã e eu às 10h da noite. Nasci numa clínica e custei seis contos, hoje trinta euros. Cresci a ouvir estas histórias hilariantes que me enchiam de sorrisos. Tão exagerada que era! Este vai ser o 2º aniversário em que a minha mãe já não me acompanhará. Faria 62, mas quis Deus tomá-la aos 60. Cada vez a recordo com menos dor e mais sorrisos. Mas sempre com muitas saudades. Está com Jesus, o nosso Jesus. O reencontro é certo. Ficam estas doces memórias da filha que nunca teve coragem de fazer uma franja. 

10 comentários:

Patrícia disse...

Que lindo!!! Emocionei-me Didi.
É tal e qual como dizes.

Eu nasci na mesma clinica que fica em frente à praça de touros. No momento do meu nascimento ouvia-se a música da tourada! lolol

Adriana disse...

E custaste 4 contos! :)

Anónimo disse...

E já foi caro.

Eunice Bento disse...

Continua a escrever assim!

Ana Rute Oliveira Cavaco disse...

Ai o que eu me ri agora!

Gustavo disse...

"The Big Fish" um filme de Tim Burton. É um paralelo à história da nossa mãe.

Avozinha disse...

Parabéns, Adriana! Parabéns, Mamã!
Ficaste cara! O Tiago e a Sara, no mesmo ano em Lisboa, ficaram ambos pela módica quantia de 7 626§80... Isto incluindo 3 diárias minhas e 6 de bebé...

Adriana disse...

A sério, Avozinha? E eu que pensei que tinha sido baratinha...

Avozinha disse...

Viva a Clínica Cabral Sacadura...

Dulce disse...

Não podias ser assim tão feia se te fizeste tão linda! :)